outubro 05, 2006
A diferença entre a nossa casa e a do vizinho
Não sei se todos vocês foram como eu, mas ontem desde o meio da tarde que passei o tempo a ligar a rádio ou a fazer zapping pelos canais da tv, tentando saber como acabaria o caso dos reféns presos numa dependência bancária em Setúbal.
O curioso é que ando farta de ler história dessas.
Passa-se por todo o mundo e imagino que algumas nem chegam a ser lidas em Portugal por se considerar falhas de interesse… Porque quando aquilo se passa lá no Peru, ou nas Ilhas Salomão, ou na Serra Leoa, ou no Azerbeijão, dizemos contristados “ai, coitados…” e voltamos a página. É certo que tem também havido famosos filmes de suspence com este tema, e aí já nos sentimos emocionados e próximos, graças ao cinema.
Mas desta vez passou-se aqui. A poucos quilómetros de onde eu moro! Num ápice coloquei-me na pele dos reféns e ‘senti’ o que estavam a passar. E, se estou a escrever agora estas palavras com tanta calma, é por saber que tudo acabou bem ou estaria ainda a roer as unhas.
Pronto a história passou, o ladrão falhado está preso, os reféns a recuperar do maior susto da sua vida, e os moradores daquela rua vão ter que contar até daqui a muito tempo. O que me deixou a pensar foi na minha reacção e que acredito ser semelhante à de muitos de vocês – o facto da proximidade de um acontecimento, mesmo que não nos diga directamente respeito mudar completamente a luz com que é encarado.
Assim é o ser humano!


Emiéle
Publicado por populo às 09:20 AM | Comentários (5)
setembro 27, 2006
Nomes
É interessante.
Muito interessante mesmo, se relacionarmos duas informações.
Estive a ler com atenção este artigo
Aqui analisam os motivos que levam os pais a escolheres determinados nomes para os seus filhos. O estudo é limitado porque, pelo que se vê, incidiu apenas em famílias da elite, possivelmente as mais fáceis de estudar por se poder com menos dificuldade consultar as árvores genealógicas. A investigadora encontrou, nestas famílias de elite «uma "herança" na designação dos filhos tão ou mais importante do que a transmissão de bens». Também tenho essa noção. O primeiro filho ter o nome do pai ou do avô, é uma tradição em muitas famílias. Mas já agora seria também curioso fazer-se o estudo do outro lado da sociedade, a que dá aos filhos os nomes das personagens de telenovelas, ou nomes exóticos para serem os únicos a chamar-se assim (conheço casos). E o facto é que um nome tem de se usar a vida toda, gostemos ou não de nos chamar desse modo, na nossa sociedade ainda não se pensou em usar um nome ‘provisório’ até o próprio ter capacidade de decidir se o mantinha ou não.
Mas é curioso, cruzar este estudo com um outro artigo que tinha guardado numa pastinha para um dia pensar melhor sobre o tema os nomes dos jogadores de futebol O artigo vem do Brasil, onde é ainda mais forte o uso de diminutivos para tratar os jogadores. Contudo mesmo por cá também é uso e costume. Raramente se chama um jogador apenas pelo seu apelido ( ou então ‘diminui-se’ o apelido - “Vieirinha”) e com frequência se ouve ‘Jorginho’, ‘Miguelito’, ‘Rogerinho’, ‘Serginho’, ‘Marquinho’ ‘Nandinho’, ‘Marcinho’ levando-nos a pensar se é um jogo de infantis ou o plantel sénior…
É de ler o artigo brasileiro que nos dá uma explicação social para o fenómeno de raramente se ver um jogador com dois apelidos (por cá só me lembro do Sá Pinto o que confirma a regra da origem social) uma vez que o futebol se democratizou com todas as suas implicações.
OK, mas talvez não fosse preciso ir tão longe. Ou talvez estes jogadores começassem de facto nos infantis, e depois continuassem com os nomes porque eram chamados. Deve ser isso, mas Nani, Kata, Didi, Nené, Dani, Cadu, Neca, por paradoxo, mais parecem os ‘petits noms’ das tias da linha…
Emiéle
Publicado por populo às 03:00 PM | Comentários (4)
setembro 18, 2006
Boa vontade e facilitadores de vida
No outro dia, quando falava no asseio que havia nas ruas de uma cidade nórdica, o 'ilha_man', chamou-me a atenção para que « o concelho da Horta, no Faial, tinha sido considerado concelho mais limpo da UE » e acrescentava que a tarefa da limpeza naquelas ilhas era facilitada pela quantidade de caixotes do lixo que as autarquias distribuíam pelos locais públicos.
Ora isto é realmente uma bola de neve – a ausência de apoio leva ao desmazelo, e o lixo atrai lixo…
Um exemplo – da porta da minha casa até à entrada do metro, existe um jardinzinho. Não é grande coisa, é magrinho e comprido, mas dá para haver um pouco de relva, umas duas dúzias de árvores, um ou outro arbusto, uns banquitos para descansar e uma amostra de parque infantil. Podia ser pior. Mas, como se adivinha, é uma zona de passagem até ao metro portanto tem bastante movimento. Quando passo por ali, noto que aquela amostra de relvado, para além dos cocós de cães, está cravejadinha de restos de embalagens de cigarros, de batata frita, de iogurtes líquidos, latas, garrafas, pacotes de bebidas, embalagens de chicletes, outras de preservativos, imensos bilhetes de metro, restos de jornal, restos de bolos, papeis sujos amachucados, … bom, chega? E vou quase sempre resmungando «que gente tão porca!» e irritada com isso.
Ora no outro prato da balança também devo dizer que esta zona - que como disse é comprida, estende-se por mais de dois quarteirões de casas - tem unicamente numa das pontas um solitário cesto de lixo. Acredito que, se quem cuida daquele espaço se tivesse lembrado de espalhar uma dúzia de caixotes de lixo, grande parte do que está no chão ficaria ali recolhido. Assim, muitos não estão para andar de embalagens na mão e atiram-nas simplesmente para onde já estão as outras.
Claro que está mal, mas… não podia haver uma ajudinha pedagógica?
Olhem para os Açores.
Emiéle
Publicado por populo às 01:05 PM | Comentários (7)
setembro 16, 2006
Um curso "com saída"
Na canção Bilhete-Postal dos Rio Grande ouvem-se dois versos que soam a algo de muito familiar:
«O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída»
Esta é uma preocupação de quase todos os pais e até já de muitos jovens – quando pensam na sua vida académica, ponderam cuidadosamente que “saída” tem aquilo que pensam ir estudar. Mas a verdade é que essa é uma área onde a vida e a sociedade tem andado vertiginosamente depressa.
Custa-me imenso, ouvir um adolescente ponderar a escolha do seu curso não por aquilo ter interesse para ele mas porque ouviu dizer que com ele pode arranjar emprego. Até porque muitas vezes é influenciado por casos que conhece no momento, mas afinal foram excepções, eram pessoas ou muito dotadas ou que tiveram sorte (que também é um factor a considerar…)
No outro dia, em conversa com uns amigos, eu afirmava que deveria haver estudos com prospecções sociais que ajudassem a prever que tido de formação seria útil para o mercado de trabalho dentro de 4 ou 5 anos, mas fui decididamente contrariada. Explicaram-me que isso é impossível. Essa evolução é imprevisível e depende de factores que ultrapassam um país. O erro português que explica que existam tantos jovens licenciados sem a ocupação para que o seu curso os preparou, foi terem permitido a abertura de tantas e tantas universidades. Esse boom, de cursos para várias bolsas, alguns bem fraquitos pode explicar em parte o panorama actual. Repare-se nos cursos que este ano ficaram sem alunos . Estranho, não é?
E o que eu vejo, cada vez com maior frequência, é que muitos dos jovens, já com o canudo na mão, depois de
terem completado uma formação em determinada área ( tantas vezes bem difícil!) acabam por se orientar para outra, completamente diversa, e aí até têm trabalho e sucesso profissional! Claro que os anos que passaram na faculdade serviram-lhes para adquirir também conhecimentos, disciplina, maturidade, rigor científico.
Mas há algo que me soa mal. Terá de ser mesmo assim? Uma espécie de “o que interessa é estudar seja o que for e depois logo se vê”? Até mesmo porque no final tem de se voltar atrás e refazer alguma formação nessa sua ‘segunda escolha’.
Ando muito baralhada.
Emiéle
Publicado por populo às 10:05 AM | Comentários (31)
setembro 15, 2006
A falta de diálogo

A notícia, assim em bruto, é assustadora.
Como?
Uma criança que falte às aulas pode “ir ser buscada” a casa pela polícia, e levada à força para a Escola???!
Bom. Eu sei que existe ou existia uma disposição dessas, para prevenir os casos, raros pensava-se, onde os responsáveis pela educação de uma criança, por uma questão de desleixo e desorganização da sua vida não a enviavam à escola. Mas essa era uma situação. Tendo em vista o benefício que a educação traz a uma criança, como esse é um seu Direito, pratica-se esse excesso em defesa da criança. Enfim...
Mas o que aqui se vê não é isso. É a escola onde a criança andava que vai fechar, os pais não concordam e portanto não a mandam para a escola nova, e então a Coordenadora da Área Educativa não está de modas e atira-lhe com a GNR!
Oh senhores pedagogos!!! Acudam aqui! Imagina-se como que é que se sente uma criança, que assiste a um conflito entre os pais e a GNR e vai, à força, levada por esta para a escola? Já se calcularam na pele do professor que vai ensinar esta criança, arrastada até lá por um agente de polícia? Eu nem acredito que isto venha a acontecer, acho que isto é só um BÚÚÚÚ, da parte dos agentes da Educação para assustar os pais.
E, como não sei exactamente o que se passou antes, só posso imaginar uma grande falta de diálogo. Acredito, ou quero acreditar, que esta mudança de escola é por bons motivos. Pode ser necessária. Mas porque não encontrar uma solução com os pais e não contra eles? Porque não ouvir as suas razões? Porque não procurar em conjunto soluções? Talvez encontrem outras em que não se tinha pensado.
Desculpem senhores lá da DRE, mas os pais não devem avaliar apenas os professores, já agora convinha que também avaliassem os serviços. E que grande chumbo!
Emiéle
Publicado por populo às 08:17 AM | Comentários (8)
setembro 03, 2006
A técnica de empatar
A blogosfera é um mundo imenso ( esta é a tal verdade do “amigo banana”) e por mais que se ande a passear por aqui nunca se consegue ter um panorama de tudo o que é importante. A verdade é que creio que todos nós visitamos os blogs dos nossos amigos virtuais e, episodicamente, por um comentário deixado por acaso num post, lá se descobre um novo blog de interesse.
Eu fico sempre contente quando tal acontece. O mundo alarga-se e apesar da coluna da direita começar a estar tão crescidinha que não lhe dou a volta todos os dias, é excelente encontrar um novo companheiro que pense como nós.
Nestas passeatas encontrei um post Será que só pode haver sobremesa com sopa? cujo título era já interessante. E mais ainda o conteúdo.
Chama-nos o Bag a atenção para um fenómeno muito comum: sempre que há uma proposta de uma lei sobre um assunto que por qualquer motivo não interessa discutir, chove um tipo de argumentos que se resumem a “há coisas mais importantes a discutir antes disso”. Bingo!!! É a velha atitude do "nem come nem deixa comer"...
Não estão fartos de ouvir este ‘argumento’? Não se diz que o caso não mereça análise, isso não, o que se avança é que há outros mais importantes. OK! E depois? O que é que impede que se resolvam os dois?
Porque a questão nem é exactamente só haver sobremesa com sopa, o ponto é que a sopa terá de vir, inevitavelmente, antes da tal sobremesa. Mas porque não comer-se a fruta e acabarmos com a sopa?!
O Para lá de Bagdad vai, cheio de mérito, para a minha coluna da direita. Um bom blog.
Emiéle
Publicado por populo às 03:26 PM | Comentários (6)
setembro 01, 2006
Ai!!!! Quem é este homem? !...
Pai ausente
Tinha este vídeo já há algum tempo, mas por uma história que ouvi hoje apeteceu-me deixá-lo aqui para futuras reflexões.
É complicado ordenar prioridades. Eu sei.
É certo que hoje ter um emprego decente é muito importante e com isso poderemos dar estabilidade económica à nossa família e aos nossos filhos. Mas terá de haver limites. Essa estabilidade económica não é tudo. Há outras estabilidades. A emocional por exemplo.
Quando o trabalho se torna tão esgotante que o tempo que se está em casa é a olhar para o ecrã da TV ou atrás de um jornal… algo anda mal.
Emiéle
Publicado por populo às 09:30 AM | Comentários (6)
agosto 21, 2006
A importância que pode ter um blog
Para muitos ( para mim, por exemplo ) o blog é um entretimento, um hobby.
Mas pode não o ser.
Pode ser modo possível de desabafar num país sujeito a uma guerra que parece não acabar.
No Líbano nasceu um blog chamado KERBLOG de um blogger que encontrou este modo de expressão para falar do seu país.
Com 30 anos, desenhador, músico, o blog está cheio de cor e criatividade. E ironia, como custa acreditar!
Vão ver e apreciar.
Ele pede que o divulguem, e é o mínimo que poderemos fazer!
«from under the lebanese earth
more than 1500 persons are asking themselves
why?»
Pois é, amigo. Porquê?
Emiéle
Publicado por populo às 08:35 PM | Comentários (6)
agosto 18, 2006
O gosto de aprender
A Inês escreveu um post no Teacher sobre a questão da fuga de estudantes para disciplinas “fáceis” que inicialmente até interpretei de um modo diverso do que é a realidade. De qualquer modo ela conta que, por culpa da exigência dos exames de Química, «numa certa escola no ano escolar anterior havia cinco turmas de Química e neste que vem haverá apenas uma com 10 alunos». Como na altura não estava a ponderar a importância das médias para o ingresso em certos cursos, imaginei que os jovens desanimassem pela dificuldade da matéria.
E o que a experiência me diz é que no ensino mais do que em qualquer outra coisa, a motivação é a pedra-chave. Todos nós tivemos a experiência de disciplinas de que não gostávamos porque também não gostávamos do professor…E inversamente, nalguns casos, matéria que considerávamos detestável, de repente passou a ser muito interessante porque o professor mudou!
É essa a magia do ensino. E por isso ser professor é uma profissão tão bela. Porque estudar pode ser um verdadeiro prazer.
Lembro-me uma vez, era o meu filho ainda novinho, esteve um fim-de-semana todo a estudar desde manhãzinha até ir para a cama. Eu já estava a ficar enervada com aquilo parecia-me um exagero e, de um modo muito-pouco-mãe, lá lhe atirei às tantas: «-Mas não chega!!!??? Bolas, não estás cansado?! Larga isso um bocado e vai apanhar ar.» e tenho gravada a imagem de uma cara risonha, uns olhos a brilhar, e a resposta «Então nunca ouviste que, ‘quem estuda por gosto não cansa’?»
Fui eu que fiquei envergonhada.
Mas lá está. Ele estava feliz, estava a estudar por gosto, a aprender uma coisa que o interessava. Era apenas esse o segredo e mais nada.
Emiéle
Publicado por populo às 01:58 PM | Comentários (6)
O gosto de aprender
A Inês escreveu um post no Teacher sobre a questão da fuga de estudantes para disciplinas “fáceis” que inicialmente até interpretei de um modo diverso do que é a realidade. De qualquer modo ela conta que, por culpa da exigência dos exames de Química, «numa certa escola no ano escolar anterior havia cinco turmas de Química e neste que vem haverá apenas uma com 10 alunos». Como na altura não estava a ponderar a importância das médias para o ingresso em certos cursos, imaginei que os jovens desanimassem pela dificuldade da matéria.
E o que a experiência me diz é que no ensino mais do que em qualquer outra coisa, a motivação é a pedra-chave. Todos nós tivemos a experiência de disciplinas de que não gostávamos porque também não gostávamos do professor…E inversamente, nalguns casos, matéria que considerávamos detestável, de repente passou a ser muito interessante porque o professor mudou!
É essa a magia do ensino. E por isso ser professor é uma profissão tão bela. Porque estudar pode ser um verdadeiro prazer.
Lembro-me uma vez, era o meu filho ainda novinho, esteve um fim-de-semana todo a estudar desde manhãzinha até ir para a cama. Eu já estava a ficar enervada com aquilo parecia-me um exagero e, de um modo muito-pouco-mãe, lá lhe atirei às tantas: «-Mas não chega!!!??? Bolas, não estás cansado?! Larga isso um bocado e vai apanhar ar.» e tenho gravada a imagem de uma cara risonha, uns olhos a brilhar, e a resposta «Então nunca ouviste que, ‘quem estuda por gosto não cansa’?»
Fui eu que fiquei envergonhada.
Mas lá está. Ele estava feliz, estava a estudar por gosto, a aprender uma coisa que o interessava. Era apenas esse o segredo e mais nada.
Emiéle
Publicado por populo às 01:58 PM | Comentários (6)
Lutar contra o Medo

Fui alertada primeiro por um post da Mar.
Depois fui ver. E reconheço que é um tema de uma enorme importância. É uma verdade sem discussão que se "a arma" do terrorista é o medo, só o poderemos “desarmar” se não se tiver medo.
Evidente, não?
Se alguém nos agredir com uma faca, uma pistola, um pau, para evitar a agressão retiramos-lhe a faca, a pistola, o pau. Se nos agridem com o Medo, isso só se pode combater se o recusarmos.
Há um movimento “werenotafraid” que defende essa posição. Tem já muitos aderentes.
É uma posição de força moral, de energia, de combate e de coragem.
Só posso apoiar com toda a força!
Não ao Medo!
Temos de os vencer, sob risco de isto se tornar uma espiral infernal. Esta é uma chantagem, se o mundo se assusta uma vez assustar-se-à sempre, ficará sem defesas seja qual for a chantagem que depois surja.
Tem de se dizer NÃO.

Emiéle
PS – A Inês deixou em comentário uma referência extremamente importante. Conselhos às crianças de como lidar com o medo Para ler e guardar.
Publicado por populo às 08:25 AM | Comentários (18)
julho 22, 2006
E afinal o que é qualidade de vida?
Parece uma dúvida um bocadinho metafísica…
Mais uma vez (isto aparece ritualmente de vez em quando na imprensa) foi publicado o ranking mundial das cidades com melhor e pior ‘qualidade de vida’.
Não me apetece falar mais uma vez da nossa posição nesse ranking nem nas diversas posições desse xadrez complicado. Apetece-me é pensar o que é esse conceito de ‘qualidade de vida’. Porque toda a gente usa a frase: «Ena pai!!! Isto é que é qualidade de vida!!!» quando se tem algum conforto inesperado, ou nos sentimos particularmente bem. Mas, escrevi um post logo aqui encostadinho onde sublinhei que actualmente nas nossas cidades nos “mexemos” muito menos e isso não é nada bom. Contudo, se calhar a existência de bons transportes, para facilitar as deslocações, faz parte da “qualidade de vida”. Comemos uma alimentação de alimentos já escolhidos e muitas vezes pré-cozinhados, que facilita muito o trabalho doméstico, mas os especialistas dizem não ser lá muito bom para a saúde… É qualidade de vida ter muitas escolhas? Comer morangos no Natal, ou ter tanta variedade de fruta exótica é qualidade de vida? Talvez.
Por outro lado, também não sou defensora de que viver no campo é um sonho. Se calhar pode ser, desde que se
tenha muito dinheiro. É indiscutível que há menos poluição, que há muito mais sossego, que é tudo mais ‘natural’, mais próximo da natureza, mas depois há menos respostas importantes a nível de cuidados de saúde, a nível cultural.
Volto a olhar para o famoso ranking. Pois é. Para falar com sinceridade não me apetecia por aí além ir viver para a Suiça. OK, Zurique, Genebra, etc são excelentes, mas…Se calhar por ter nascido e sido criada aqui, gosto do sol, gosto do calor, gosto de um pouco de confusão, gosto de que metam conversa comigo e eu com as pessoas, gosto de viver com muitas emoções, sou latina é o que é. E essas sociedades parecem-me tão assépticas, que duvido que fosse lá feliz.
Se calhar cada um tem uma ‘qualidade de vida’ à sua medida.
:D
Emiéle
Publicado por populo às 01:20 PM | Comentários (5)
abril 22, 2006
A memória
É um dos nossos bens mais preciosos.
Sem memória quase nada existia porque não podia haver aprendizagem. Nós aprendemos porque fixamos e depois podemos repetir. E é sabido que a memória se treina, que existem exercícios para isso e que por outro lado se “gasta”. O facto de recordarmos muito melhor as coisas que aprendemos em crianças do que aquilo que se aprende já com alguma idade é porque ela começou a ficar gasta. E o caso conhecido de que um idoso se lembra muito bem da sua festa dos 8 anos mas não do que comeu na véspera, é exactamente porque aos 8 anos a memória tinha outra qualidade e os factos que lá ficaram impressos já não se apagam. E a partir de uma certa idade todos começamos a brincar (mas com alguma amargura) quando não nos lembramos de algumas coisas. Falamos do “primo alemão” mas com um apertozinho no coração – será que estamos a ficar velhos? Aparece-nos agora um estudo interessante.
Essa perda de memória não é uma fatalidade que implique resignação. Podemos lutar contra ela. Mas… conhecem os chamados “lares de 3ª idade”? Já visitaram aquelas salas de velhinhos com uma manta nos joelhos , enfileirados a olhar para a televisão? O que o estudo nos diz, e faz o maior dos sentidos, é que «quando determinadas capacidades não são exercitadas, vão ser inevitavelmente perdidas». O facto é que nesses “lares” (palavra detestável porque falsa, qual lar qual carapuça!) mesmo os mais cuidadosos, seguem os conselhos médicos que insistem na alimentação, sono e até exercício físico – isso já muuuuito mais difícil – e, nos melhores casos, alguma ‘diversão’. Mas onde se faz essa “ginástica mental” para manter a memória em melhor estado?! Nem nesses lares nem em casa, apesar de quando a pessoa ainda está inserida na comunidade continua a ser estimulada a fazer uso das suas competências. De qualquer modo isso não lhe é “receitado”. Paradoxalmente pedem-se “medicamentos” para a memória mas não existe ainda a noção que o melhor medicamento é o seu treino, é a sua prática. Era muito importante que essa imagem passasse, sem ‘culpabilizar’ quem se sente sem memória, mas sem facilitar. Insistindo no esforço, e aplaudindo quando o resultado é bom.
Porque, voltando à minha primeira frase, ela é um dos nossos bens mais preciosos.

Emiéle
Publicado por populo às 04:00 PM | Comentários (7)
março 07, 2006
O valor das emoções
António Damásio é um dos exemplo mais vivos de como se pode mostrar “lá fóra” que há portugueses de altíssima qualidade, que muitas vezes com as condições de trabalho que temos em Portugal nunca chegariam a mostrar o que valem. Como portuguesa tenho muito orgulho nele!
Falou agora na Conferência Mundial de Educação Artística, no CCB. E referiu-se a um ponto que também me inquieta muito e que é «as aptidões cognitivas das novas gerações se desenvolverem muito mais rapidamente do que as suas capacidades emocionais»
A verdade é que a emoção, o seu desenvolvimento, o seu controlo, mas também o seu correcto cultivo é essencial para um equilíbrio da personalidade. E, por muitas e variadas causas, esse cultivo da emoção tem sido muito descurado na relação pais-filhos. A criança é muito estimulada nas suas áreas cognitivas, ou seja a aprender coisas mas não a conhecer os seus sentimentos.
Diz Damásio, e ele sabe o que diz, "as crianças afectadas nos seus sistemas emocionais, nos primeiros anos de vida, não vão conseguir aprender as convenções sociais dos adultos e, como consequência disso, temos o facto de as patologias sociais, nomeadamente a dependência de drogas, estar a aumentar nas escolas". Não é só em Portugal, é certo, mas se não pomos as barbas de molho agora daqui a pouco pode ser tarde.
Pais, atenção: temos de voltar a repensar a educação.

Emiéle
Publicado por populo às 07:21 AM | Comentários (10)
janeiro 03, 2006
Uma história extraordinária
Existe no Kenya uma aldeia parecida com qualquer outra, na aparência. É circular, e as casas são feitas com “tijolos” de lama e bosta seca de vaca. Uma aldeia tradicional.
Chama-se Umoja, e está longe, muito longe de ser uma aldeia normal. Os seus habitantes são só mulheres. Mulheres duplamente vítimas mas que souberam organizar-se e sobreviver.
A aldeia formou-se com um conjunto de mulheres que depois de terem sido violadas tinham sido expulsas pelos maridos que consideravam que elas tinham trazido a vergonha à comunidade e família.
Com energia, refugiaram-se num terreno abandonado e essas corajosas mulheres construíram a sua aldeia Umoja, que significa Unidade. Essas quarenta mulheres iniciais, saíram-se tão bem, que foram recebendo outras mulheres, fizeram um acampamento para turistas, um centro cultural, e a aldeia ganhou fama. Mas não tem lá homens!
De tal modo que, ironia máxima, os homens despeitados, foram construir outra aldeia em frente desta, para captarem os turistas mas sem nenhum sucesso. Estes preferem a aldeia feminina, que vai de vento em poupa. Com o dinheiro que têm ganho já conseguiram enviar os filhos à escola, comprar roupas novas, melhorar a alimentação, e sobretudo recusar às suas filhas os casamentos precoces e a excisão.
Estas mulheres vão dizendo que até apreciam a presença de homens… mas como amigos.
Uma história bonita, de coragem, para o início do ano.
ML
Publicado por populo às 08:04 AM | Comentários (7)
novembro 03, 2005
Meninos maltratados
Numa época onde quase tudo está informatizado, onde se fazem maravilhas quando há vontade, como é possível que ainda não se cruzem dados de escolas, hospitais, serviços sociais, centros de saúde em relação a crianças maltratadas
De que se está à espera? Que se tornem casos de parangonas de jornais?!
A socióloga Ana Nunes de Almeida tem um trabalho notável sobre o assunto. Conheço os seus estudos e não consigo entender como um trabalho encomendado há 10 anos, só agora chega ao parlamento.
Esta sua frase, que espelha completamente a nossa realidade deve ficar para pensarmos nela: "Há uma certa resistência que tem a ver com uma cultura institucional que ainda existe em muitos locais onde trabalham os profissionais da infância que é de imaginarem que as crianças que lhes passam pelas mãos são sua propriedade e a informação que existe sobre elas não tem de ser dada aos outros".Exactamente, meus amigos. Parece estar em causa um problema de Poder.
A mim custou-me a acreditar de início, mas é exactamente assim!
ML
Publicado por populo às 08:19 AM | Comentários (3)
outubro 17, 2005
Mães em qualquer idade
Hoje o DN apresenta pelo menos 3 artigos dedicados ao facto de haver cada vez mais mulheres a terem filhos em idades “tardias”. É possivelmente o contraponto a haver também tantas mães adolescentes, mas exactamente pelos motivos opostos…
É claro que também é
diferente a situação da mulher que tem o “último filho” aos 40 e a que tem o primeiro…
E há ainda o caso, frequente, das mulheres que casam tarde . E que se encontra cada vez mais. Basta estar com atenção para ver que se casa mais tarde hoje em dia, e não é difícil entender porquê. Reparem que também é cada vez mais tarde que se entra no mercado de trabalho. Quantos casos não conhecem de jovens que acabam os seus cursos, fazem estágios, fazem mestrados, fazem especializações, à espera de encontrar um posto de trabalho? E como casar antes disso? Vivendo à custa dos pais, que também não podem lá muito? Vale mais esperar.
Quando vejo as alterações da idade de reforma penso que nem é necessário grandes alterações – quando se começava a trabalhar aos 20 anos, aos 60 já se tinha cumprido 40 anos de vida activa, mas para os que começam aos 30, como se vê hoje, só aos 70 têm acumulado esse tempo…
Quero eu dizer que este deslocamento para mais tarde da idade das mães tem motivos económicos? Sinceramente, acho que sim. E também pesa o facto de a mulher de hoje já encarar a vida profissional com muita seriedade. De um modo geral, o trabalho feminino não é apenas um complemento ao salário do marido, hoje é mesmo um valor em si mesmo.
E uma mãe de 25 ou 30, ou 35, ou 40 anos, pode ser sempre uma boa mãe. Ou má, é claro. Porque não é a idade o factor mais importante mas a personalidade e o que motivou essa maternidade. Quanto ao resto, a medicina já deu passos tão grandes que os perigos de há umas dezenas de anos estão muito reduzidos.
Desde que a maternidade seja desejada e bem assumida, em qualquer idade pode ser um sucesso.
ML
Publicado por populo às 07:43 AM | Comentários (5)
outubro 12, 2005
Tacto, suavidade, gestos de amor
Ontem, por coincidência, assisti na televisão a dois momentos bastante diferentes mas com mensagens idênticas que davam para reflectir.
Primeiro apanhei um pedacinho de diálogo, numa série ou filme, não sei bem porque eu passeava-me em zapping. No caso havia uma mulher que conversava com um amigo a respeito do seu namorado. Pelo que se entendia, o tal namorado tinha muitos defeitos mas ela estava-lhe muito ligada, e justificava-se dizendo que ele tinha gestos que a tocavam no mais íntimo de si. Como exemplo, mostrou uma carícia, que era contornar-lhe o oval do rosto, ao de leve com a ponta do dedo. Segundo as suas palavras “era como se lhe tocasse na alma”, e a verdade é que o amigo, a quem ela fez a demonstração, também ficou perturbado! E era um gesto tão inocente…
Mais à noite, na TV5, encontrei uma reportagem científica sobre as capacidades de um aparelho cujo nome não me interessou, um scaner-quelquer-coisa, que conseguia registar as reacções nervosas que certos estímulos desencadeavam no corpo humano. E, um dos exemplos que se via muito bem, era que o passar uma mão com alguma rapidez, ou alguma força, sobre qualquer zona do corpo desencadeava uma sensação de determinado grau, mas se a mesma mão passasse muito lentamente e de um modo leve, a reacção era fortíssima. Até mesmo se no primeiro caso fosse uma zona erótica e no segundo não o fosse, a segunda reacção era, de longe, muito mais erotizada.
Donde:
Que a nossa pele é dos órgãos mais eróticos, é um lugar comum, creio eu. Toda a gente o sabe. Mas que a excitação sentida está na relação directa da delicadeza da carícia, não está assim tão divulgado. Ontem fiquei a pensar no assunto. Eu pensava que era mais específico das mulheres. E, na verdade, só posso falar por mim mas os dois casos de ontem abriram outras perspectivas, porque tanto no estudo científico da noite, como no romance da tarde, quer homens quer mulheres reagiram de igual modo.
Podemos acreditar que a doçura e a meiguice têm um grande papel numa relação erótica.
Ainda bem. Como dizia a personagem de ontem, tocar-se na alma pode deixar uma marca fortíssima. E ficamos mais humanos. Gostei de pensar sentir assim.
ML
Publicado por populo às 04:11 PM | Comentários (6)
outubro 11, 2005
Bullying
Dois posts no Blog Teacher, um sobre violência nas escolas e outro também sobre violência nas escolas mas de um outro ponto de vista, o das praxes veio trazer ao de cima inquietações que são minhas desde há muito.
O Bullying é um fenómeno inquietante. Sei que se chama Bullying “a actos de perseguição e de violência física ou psicológica praticados entre adolescentes” como mais ou menos dizem os especialistas . A Inês chama-lhes carrascos e a palavra está correcta. Este fenómeno não é recente, e não está reduzido a comportamentos de adolescentes, infelizmente. Em todas as idades há quem goze com o mal dos outros ou, pelo menos, tenha um interesse perverso na desgraça alheia - por algum motivo a comunicação social perde tanto tempo com desgraças.
Só que nas escolas isto tem outra ressonância. E se o fenómeno não é novo, há muito que se goza com os “buchas”, com os “caixas-de-óculos”, com os “trinca-espinhas”, começa agora por todo o mundo a atingir uma dimensão assustadora. Porque ouvimos falar de suicídios de jovens que não aguentaram a pressão. Porque as consultas de saúde mental registam casos e casos de miúdos em sofrimento. Porque alguns dos casos de abandono escolar têm essa origem. E, se fizermos uma busca na net, vemos que o fenómeno alastra como uma mancha de óleo – Europa, Brasil, Canadá…
Claro que tem a ver com a enorme “força do grupo” na adolescência. Todos sabemos que “o grupo” durante a adolescência tem vida própria. Portanto é natural que quem não se integre seja vítima de ostracismo.( lembram-se do About a boy ? ) Mas há limites que é grave serem quebrados, porque vão abalar valores de respeito pelo outro que deveriam fazer parte da educação cívica. Pais e professores têm de estar com a maior das atenções e sobretudo não desvalorizar os incidentes de que tenham conhecimento.
O que me choca, é que este comportamento alastra não só geograficamente mas também para idade mais baixas ou mais altas. Há cenas, em Jardim de Infância, que se podem classificar de bullying!! Toda a gente sabe que entre crianças é engraçado brincar às lutas ou às guerras. “Vamos brincar à luta?” é um convite vulgar. Mas há regras. “Ai que me estás a aleijar!! Assim não vale!” e pronto. Quando se diz, “assim não vale” costume ser a palavra mágica. Agora se for um grupo de vários contra um, já não é bem uma luta, é uma agressão. E então não pode “valer” mesmo! E o adulto deverá intervir.
Por outro lado, o problema das praxes vai no mesmo caminho. Deve ser para ter graça. Tem graça? Alguém me diz qual é a graça? Uma pessoa entra numa escola e é achincalhada publicamente por isso? Uma coisa será a Recepção ao Caloiro, o que até pode ser um momento de festa, a chegada de sangue novo. Explicar as regras da casa, mostrar-lhes os cantos mais famosos, integrá-los de facto numa nova estrutura. Mas não é nada disso. Já me disseram que só é praxado quem quer, portanto não há mal nenhum. Para mim há, porque é a própria concepção que está errada. Ridicularizar seja quem for, e ainda por cima um colega, é uma base errada de comportamento e recuso-me a mudar de ideias.
Publicado por populo às 03:23 PM | Comentários (58)
Saúde Mental
Ontem, 10 de Outubro, foi o Dia Mundial da Saúde Mental. Eu nem referi o facto no blog, não porque não me interesse a Saúde Mental (talvez caia até no extremo oposto ) mas porque todos os dias do calendário são “dias” de qualquer coisa. No século XXI os “dias de” substituíram os santos no calendário. Hoje, por exemplo, é Dia Mundial da Luta contra a Dor. A verdade é que às tantas ninguém liga.
Mas a verdade é que o Dia existiu e uma das conclusões que foram divulgadas é que há falta de técnicos
Afinal não é só em Portugal! Reconhece-se que o problema é geral, e o curioso é que o diagnóstico é semelhante ao que se passa cá. Por exemplo «O número de psicólogos cresceu globalmente em 100 países analisados, mas a sua distribuição é considerada pior do que há quatro anos» Onde é que já ouvi isto?
Eu sei, por exemplo, que muitos dos nossos serviços públicos na área da saúde mental só funcionam graças a estagiários voluntários que trabalham de graça. Se esses desaparecessem creio bem que as unidades teriam de fechar. Os centros de saúde que têm psicologia contam-se pelos dedos.
E contudo é uma profissão onde existe maior taxa de desemprego.
ML
Publicado por populo às 09:09 AM | Comentários (6)
outubro 03, 2005
Filhos únicos
Ouvi há pouco tempo, alguém dizer que dentro de alguns anos se ia dizer a frase: “no tempo em que havia irmãos…”. É verdade. Dentro de algum tempo a noção de irmão ou de tio, passa a ser coisa do passado. Os casais, desejam filhos, desejam até muito, tratam-nos desveladamente e com muito mimo e carinho, mas ficam-se pelo número um. A natalidade em Portugal indica exactamente isso
Difunde-se contudo a ideia, pelo menos já a tenho ouvido, de que tal acontece por egoísmo dos casais que não querem renunciar às suas comodidades, e portanto prescindem dos filhos.
É o tipo de conclusão profundamente injusta e leviana.
Ainda aceito ( e… com muita dificuldade ) que se possa tirar essa conclusão apressada, de casais que não queiram nenhum filho. Mesmo esses lá saberão porquê e não estamos dentro das suas cabeças para lhe conhecer os motivos.
Contudo, quem tem um filho já aceitou “perder” as tais comodidades da grande liberdade, de dormir até tarde, de marcar férias quando quiser, de gastar apenas consigo o seu ordenado.
O que faz a diferença de um para dois filhos?
Sabem que apoios sociais existem? Um infantário custa um salário mínimo. Se as crianças forem duas, serão dois salários mínimos. E ter um filho a estudar? Mesmo no ensino oficial há livros, cadernos, material escolar, equipamento. Não. Não se trata de egoísmo, não se trata de prescindir do supérfluo, trata-se já de não haver para o essencial. Enquanto não se modificar em profundidade a nossa política social, não se imagine que a tendência para a baixa da natalidade se vai inverter. E mais, creio até que revela sentido de responsabilidade por parte dos pais.
ML
Publicado por populo às 07:35 AM | Comentários (9)
setembro 25, 2005
“Crianças de Hoje” ou “Sociedade de Hoje” ?
Li no blog Conversas de Xaxa, uma anedota divertida: “Crianças de Hoje”. A história tem graça, e lembrei-me que na minha família se contava uma, verdadeira, mas que está para esta como um espirro está para o Katrina. Uma menina, que também
falava mal, ficou de castigo num quarto escuro até o pai chegar. Este quando chegou abriu-lhe a porta fazendo-se de novas:"O que é isto?! Mas o que é isto?!!" ao que ela respondeu “Isto é uma gaja muito chateada!” pelo que o castigo se prolongou… Calculo que haja uns 50 anos a separar as duas histórias !
Pelos comentários lidos naquele post, vê-se que temos a noção de que a miudagem anda sem controlo. E é certo. Mas estes são “os meninos de hoje” porque vivem na “sociedade de hoje”. O modelo que observam é de falta de respeito pelo outro, de uma forma geral. A criança copia aquilo que vê. É vulgar as educadoras referirem que os pais vão deixar os filhos de manhã e nem Bom Dia dizem a quem está à porta. Com esse modelo, as normas de cortesia do Obrigado! Faz favor! Com licença! volatilizam-se. A sociedade fica egoísta e abrutalhada. Este uso frequente do palavrão, que o post do "Conversas" ilustra, é já um hábito vulgar.
Por vezes dou por mim a pensar: Um dia que se queira dizer, como desabafo, uma palavra bem forte, onde é que a vamos buscar?! Porque está tudo banalizado…
Bom, mas este tema dá pano para mangas, e ainda hei-de voltar a ele.
Publicado por populo às 03:39 PM | Comentários (11)
setembro 24, 2005
Meninos gordos
As nossas crianças têm vindo a engordar sem parar.
Portugal apresenta uma das taxas de obesidade infantil mais altas da Europa o que não é nada de que nos orgulhemos! Porque a verdade é que gordura não é formosura nem é saúde. Muitas vezes as mães e avós gostam muito de ver um menino gordinho por associarem esse aspecto a “estar bem tratado” mas nós sabemos hoje que não é nada disso.
Os nossos filhos estão gordos porque comem mal e fazem pouco exercício. É um paradoxo, por nunca se teve tanta atenção com aquilo que as crianças comem. Existem mil e um produtos pensados especialmente para a criança. Tudo com “reforços”, mais cálcio, mais vitaminas, mais isto, mais aquilo. O que os entendidos nos dizem é que essas tretas são perfeitamente inúteis, que uma boa alimentação regular, com tudo aquilo que está na pirâmide alimentar, chega e sobra para uma criança ser saudável, não é preciso reforço nenhum. E se digo que comem mal, é evidente que não é na quantidade, porque a quantidade é bem elevada muitas vezes, mas na qualidade. Desde criança que comem muito açúcar, muita gordura, muita proteína, e pouquíssimas fibras. O que os dietistas nos dizem é que os miúdos de hoje têm uma dieta hiper-proteica sem a menor vantagem. Foram muitos anos de avozinhas a dizerem. – “Vá lá, se tens pouca fome, come o bifinho e deixa o arroz…”, para agora se dar uma volta de 180º e dizer “despacha-te com o arroz e deixa lá o bife!”.
Claro que o panorama tem muitas excepções. No outro dia estava com uma amiga que falava ao telemóvel com alguém, e entre risos prometia: “Tá bem. Eu levo-te aí o gelado!” Quando desligou, perguntei com quem era a conversa. Era para um casal que tinha um pirralho de 2 anos. Como ela se dirigiu com o gelado para lá, conclui que ele era para o filho. Não senhor, era para o pai. E todos se riram no fim com a minha surpresa, porque aquele menino, não comia doces! Era regra lá em casa. Muita fruta que já era doce, mas doces “a sério” não entravam lá.
Tirei-lhes o meu chapéu!

ML
Publicado por populo às 07:34 PM | Comentários (8)
setembro 20, 2005
Crianças abusadas
Está a decorrer em Lisboa, promovido pela AMCV*, o seminário da maior importância - «O trauma no abuso sexual de crianças». A frieza dos números que lá se revelam arrepia qualquer um. Dizem-nos que, apesar da gravidade dos maus-tratos físicos, o abuso sexual é ainda três vezes mais comum! Mas vamos ser claros, um abuso sexual é TAMBÉM um mau trato físico! E de que maneira!!!
E o que se afirma nesse Seminário é que 80 % dos violadores são familiares ou amigos da família da vítima. Ou seja, enquanto se previne os nossos filhos a desconfiarem de estranhos, a não aceitarem ofertas de quem não conhecem, a defenderem-se de um mundo perigoso, abrimos as portas da nossa casa ao próprio perigo. Para além do facto terrível do ponto de vista psicológico, de que se o abuso efectuado por um estranho é gravíssimo, doloroso, repugnante, mas facilmente rejeitado, quando isso se passa paredes dentro acresce o factor de a vítima ter amor e confiança pelo violador. É portanto um crime elevado ao cubo. Na cabeça da criança tudo se confunde. Pois se é o irmão, o tio, o padrasto, o pai talvez… Como é que se vai passar a odiar uma pessoa que se amava?
Problema gravíssimo e de que a sociedade cada vez mais tem de estar alerta e consciente.
( *Associação de Mulheres Contra a Violência)
ML
Publicado por populo às 05:00 PM | Comentários (21)