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novembro 01, 2006

Dúvidas

Para que não se interprete mal o que vou dizer quero avançar já com um ponto: tenho o maior respeito, um sincero respeito, pelo modo como cada um vive os seus lutos e as perdas que sofreu. Tive os meus desde muito nova, perdi pessoas que amava profundamente e ainda hoje sofro com isso. Portanto completamente longe de mim a mais pálida censura ao modo como se vive os rituais fúnebres. Nunca o faria porque sei que cada um sente isso à sua maneira.
Acontece que eu não tenho grande sensibilidade aos rituais tradicionais. Choro os meus mortos à minha maneira, e tenho-os bem guardados na minha memória, no meu coração, e não sinto necessidade de ir ao cemitério. Mais uma vez falo apenas por mim!
Hoje é um dia onde, por tradição, se fazem deslocações enormes aos cemitérios. Volto a repetir que não tenho nada com isso. Mas tenho de observar que me impressiona um pouco que tanta gente se pareça preocupar mais com os mortos do que com os vivos. Paradoxalmente parece que o ser humano só dá preocupação antes de nascer e depois de morrer. Enquanto por cá anda, pode sofrer horrores, pode sentir-se só, pode não ter que comer ou onde dormir, pode desesperar, pode enlouquecer de desgosto, de solidão, de tristeza, que isso parece ser considerado normal.
Tenho uma amiga que desde há uns tempos trouxe o seu pai de 80 e tal anos para a sua casa. Esta decisão foi muito difícil porque implicou um enorme aumento de trabalho do seu lado. Mas ela tem-se desdobrado, quase não dorme, levanta-se de madrugada e deita-se a altas horas, porque para além do seu trabalho, tem de cuidar do marido, dois filhos adultos e amimar o pai. Tem 4 irmãs, que têm lavado as mãos desta questão com a maior calma. Há meses que não visitam o pai, porque ao fim-de-semana têm que fazer, e durante a semana não podem… Hoje telefonaram dizendo que iam a 300 km, à campa da mãe que morreu há 10 anos, deixar-lhe flores. Foi um gesto bonito, sim senhor. A minha amiga ainda teve forças para dizer, sorrindo «Quando voltarem, podiam parar aqui e dar um beijo ao Pai que não vos vê há tantos meses…». Acredito que o senhor gostaria de voltar a ver as filhas enquanto está neste mundo. Ou terá de esperar passar para o outro para que se preocupem com ele?
Temos um Dia de Finados.
Talvez fosse de instituir um Dia dos Vivos.

Emiéle

Publicado por populo às novembro 1, 2006 05:00 PM

Comentários

Ola... sou uma desconhecida tua. Tava a fazer uma pesquisa neste dia de trabalho em que nao ha muito para fazer, quando derrepente abri o teu blog. Nao sei ja porque, mas acho que foram as imagens que me chamaram a atencao. Acabei por ler os posts todos que aparecem nesta pagina, sem qualquer ordem... e quanto mais li mais me cativaste com as tuas palavras sinceras. Este post especifico... foi o ultimo que li, e foi o que me deu a sensacao que deveria dar-te a conhecer que esta estranha (eu), num pais diferente, falando a mesma lingua, parou... leu, pensou, partilhou sentimentos e sorrisos interiores(para mais ninguem pensar que me estou a divertir lol) ao ler as tuas palavras.

Concordo com tudo o que disseste aqui... e eh realmente mto triste. Tambem tenho exemplos familiares... culpados do mesmo que as tais 'irmas desaparecidas', e enfurece-me... hoje de uma forma tao miudinha... que ate me assusta ao pensar que ja estou habituada a que ninguem ligue, a que ninguem faca caso, a que todos tem uma vida 'dificil' que mais ninguem a volta compreende.
Eh triste sim, e talvez um dia quando a velhice e a solidao lhes chegar, todos estes actos de 'deixar passar' na esperanca que passe 'desapercebido', nao seja de facto tao desapercebido assim. E ai... apesar que tarde demais... tambem essas pessoas se arrependerao. Aos que possam ainda vir a ler este post... sim! A vida eh dificil, nao perdoa muitas coisas e chega por vezes a ser injustamente maldosa... aqui estamos nos para a acalmar, aqui estamos nos para dar e receber aquele bocadinho tao importante que fara a vida de quem nos rodeia um bocadinho que seja mais agradavel. Nao se esquecam de quem vos ama, de quem vos cuidou... pois sao os que mais merecem o nosso tempo e o nosso carinho! Seara preferivel deixar um ramo de flores numa campa? Ou numa mesinha de cabeceira?

Cat Melo
xxx

Publicado por: Catarina Melo às agosto 13, 2007 05:29 PM

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