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outubro 22, 2006

Um Caderno de Capa Castanha VIII

Divertimentos
« - E agora que já me tenho uma ideia de como eram os ‘tempos livres’ das crianças nesse tempo, posso ter uma ideia de como eram os dos adultos?
- Com certeza! Lembra-te que fui eu que te pedi para de dividir esta conversa em ‘dois capítulos’, porque era muita informação para uma só vez.
Ora bem, primeiro é bom não esqueceres de duas coisas: por um lado estamos a falar de uma época – anos quarenta - em que o mundo ainda estava em guerra e, mesmo quando esta acabou não acabaram as restrições, por outro lado eu era muito pequena e o que te posso contar é o mundo dos adultos vistos pelos olhos de uma criança.
Naturalmente que há muitos aspectos desse época que todos sabemos nem preciso chamar a atenção, tudo o que se refere às tecnologias que ainda não existiam, como televisão, aparelhagens sonoras, por exemplo.
Eu em criança deitava-me cedo e participava pouco nos serões da família. O costume era o meu pai depois do jantar ir até ao café. Os cafés eram pontos de convívio muito animados e estavam abertos até tarde. A minha mãe raramente o acompanhava, tinha tarefas domésticas a terminar apesar de viver connosco uma tia avó que se encarregava de gerir a casa porque como já te contei, a minha mãe era professora.
Nesses serões, essa senhora mais velha dedicava-se à costura ou a fazer bordadinhos enquanto a minha mãe lia. Também tínhamos uma telefonia é certo, e por vezes ouvíamos aí música mas nem sempre estava ligada, e quanto a discos só na década de 50, comigo já adolescente, se comprou finalmente um gira-discos. Eram serões muito calmos onde se conversava bastante. Apesar de já termos telefone, não era usado para grandes conversas, falava-se ao telefone quase só para dar um recado, fazer uma pergunta, quando se queria conversar fazia-se uma visita. Os meus pais convidavam frequentemente os amigos para jantar lá em casa, ou íamos nós jantar em casa deles, mesmo durante os dias de semana. Claro que só te posso falar do que se passava na minha casa, Clara, mas com os amigos dos meus pais era semelhante: as distracções estavam muito centradas em convívios entre amigos, e na leitura.
É certo que se saía. Havia espectáculos, teatro, revista, cinema, concertos, até ballet e ópera apesar de raramente. O cinema era já com som é claro, mas os filmes quase todos a preto e branco. Lembro-me ainda de ouvir algumas discussões entre os meus pais e os amigos (como te contei fui criada num ‘ambiente intelectual’) sobre se a cor não roubava o aspecto artístico às películas… Reparava que o entretêm dos meus pais à noite, era a leitura. Liam imenso o que foi um bom modelo para mim» Clara

MONUMENTAL.jpg

Emiéle

Publicado por populo às outubro 22, 2006 03:32 PM

Comentários

Que linda descrição do dia a dia de há cinquenta anos!
Comparei a tua vivência urbana, com a minha, rural, é interessante.
Havemos de falar nisso, noutra altura.
Um reparo: Já viste que a foto, magnifica, do MONUMENTAL, está ao contrário?

Publicado por: José Palmeiro às outubro 22, 2006 05:56 PM

Obrigada, Zé Palmeiro, pelo comentário e pelo conselho.
Realmente, como estive fora estes dois dias, deixei em «entrada futura» quatro posts, mas quando isso acontece não sei porquê mas os comentários nunca entram. Ontem tive de telefonar a uma amiga a pedir que «viesse cá a casa» desbloquear esta coisa e hoje estive eu a fazê-lo… Portanto não tinha reparado nessa coisa da foto (que já corrigi) e pior do que isso tinha repetido uma frase no corpo do texto que deixei escrito.
Estes textos do “Era uma vez…” fazem um conjunto e penso que tem interesse uma espécie de estudo sociológico. :D

Publicado por: Emiéle às outubro 22, 2006 08:39 PM

Vamos ver se agora dá...

A minha infância nos anos setenta no meio rural foi muito semelhante à aqui descrita. Os serões eram passados à lareira a ouvir na telefonia os folhetins radiofónicos e os Parodiantes de Lisboa. Os homens iam ao café e as mulheres faziam renda ou remendavam as meias.

Publicado por: Bell às outubro 23, 2006 08:37 PM

Acredito que sim, Bell. Por aquilo que tenho ideia ( e penso que vem a ser contado mais tarde numa outra destas entrevistas) o ambiente rural vinte e tal anos antes - ou mais, porque estas recordações são dos anos 40 - era mais simples ainda por faltar lá pela aldeia a luz electrica, portanto nem mesmo a telefonia e os folhetins ou os 'Parodiantes' se ouvia.
Mas o que ali em cima o Zé Palmeiro diz, coincide com as tuas palavras.
(desculpem a pane dos comentários...)

Publicado por: Emiéle às outubro 23, 2006 08:58 PM

EStes serões eram à luz do candeeiro a petróleo. A telefonia era a pilhas. A minha avó tinha uma candeia de azeite. Apesar de não ser muito velha (37 anos) lembro-me da chegada da electricidade à aldeia, da instalação da água canalizada e até da construção da casa-de-banho!
Mas os serões eram muito mais familiares, a rádio não impedia as conversas como hoje em dia acontece com a televisão, os mais velhos contavam histórias do seu tempo,... havia outro convívio.

Publicado por: Bell às outubro 23, 2006 09:28 PM

Boas

a minha idade é bem pequena(42), mas fui à procura de uma foto e deparei-me com a sua e achei parecida com as da minha tia e mãe. O que mais gostei foi da foto com os brinquedos, o boneco que está sentado é igual a um que ainda existe em casa de minha mãe ( o Rui). Os relatos que faz são muito pertinentes, e a descrição simples de fácil leitura, um local que irei fixar para voltar.

Publicado por: margarida almeida às dezembro 14, 2008 07:38 PM

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