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outubro 17, 2006

Sentir

Não, não vou falar de sentimentos, vou falar de sentidos. É muito curioso observar como nós ‘intelectualizamos’ tanta coisa. E muito espontaneamente, até é preciso fazer algum esforço para inversamente se ‘pensar simples’.
Contaram-me uma experiência. Um orador numa sessão quis demonstrar qualquer coisa, pediu a uma pessoa da assistência que colaborasse e alguém se ofereceu. Foi-lhe pedido que fechasse os olhos e estendesse uma mão dizendo depois o que sentia. Colocou-se-lhe uma chave na mão e ele de olhos fechados declarou: “uma chave”. Depois colocou-se-lhe um lenço e ele afirmou “um lenço”. O tal orador com uma expressão infeliz, afinal a experiência estava a correr mal, pediu outro voluntário. Repetiu-se a cena, olhos fechados, mão estendida, e iam saindo identificações certas: “uma moeda”, ou “um papel”.
Então o orador confessou: - “Desisto!” e, curiosamente, o público não entendia o que estaria mal. Ele então explicou “Meus caros, eu só lhes perguntei o que é que sentiam. Eles podiam sentir frio, sentir leve, sentir macio, sentir pesado. Mas não «sentiam moeda» nem podiam «sentir lenço» isso já são elaborações mentais de quem reconhece os objectos".
Já pensaram as vezes que nós fazemos isso? Perante questões muito simples, adiantamo-nos, damos o que consideramos um passo em frente do que nos é pedido. Mas será que é realmente um passo em frente…? Porque não deixar os nossos sentidos muito simplesmente serem aquilo que são – olfacto, vista, paladar, ouvido, tacto. Já é tanto! Viver com plenitude aquilo que o nosso corpo generosamente nos dá.

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Emiéle

Publicado por populo às outubro 17, 2006 05:00 PM

Comentários

Nunca tinha pensado nas coisas dessa maneira... tens razão! Mas acho que eu também diria "chave" e "lenço"... temos a mania de complicar coisas simples não é?

Publicado por: Farpas às outubro 17, 2006 08:47 PM

Mas eu também, Farpas, eu também! por isso é que me apeteceu escrever isto, para nós pensarmos. Há muita coisa que afinal tem uma leitura mais directa e simples. E a nível dos afectos então nem se fala! Quando nos dá para pensar que fulano disse isto mas estava a pensar aquilo...

Publicado por: Emiéle às outubro 17, 2006 09:09 PM

Bonita reflexão.
A chave está na pergunta, não é perguntado, o que é isto ou aquilo, mas sim, o que se sente. Depois é como dizes, as elaborações, já estão feitas, e responde-se o óbvio. Contudo é de reflectir e de perguntar: Onde estão os sentidos?
Bem observado.

Publicado por: josé palmeiro às outubro 17, 2006 09:38 PM

Já tive oportunidade de fazer "experiências" sobre os sentidos com crianças de 3 anos. A mais engraçada foi sobre o paladar em que estavam de olhos fechados e eu dava-lhes qualquer coisa para comer. Como não viam o que era, e não identificavam bem qual o sabor, alguns tinham umas reacções engraçadas. Quando era a banana as reacções eram sempre mais "nojentas". :p
Interessante post. :)

Publicado por: Pitux às outubro 18, 2006 10:23 AM

A chatice de vir cá sempre de manhã é que quando escreves coisas mais tarde já não as apanho. Mas desta vez 'desci' um bocadito e encontrei este post muito interessante. Faz-nos pensar.
É certo que nós intelectualizamos tanta coisa. E chamou-me a atenção o que escreveste já em comentário «E a nível dos afectos então nem se fala! Quando nos dá para pensar que fulano disse isto mas estava a pensar aquilo»
Que pensamento correcto, Emiéle. Quem não faz isso, 'interpretar' palavras ou actos para além do seu valor imediato??? e muitas vezes de um modo completamente errado.

Publicado por: Joaninha às outubro 18, 2006 10:24 AM

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