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outubro 29, 2006

Adeus

Tinha 91 anos.
Teve 2 filhos. Tinha 8 netos. Tinha uns catorze bisnetos. Era a avó, a avó Bé para os bisnetos. Foi mãe cheia de cuidados, uma avó dedicadíssima, e tentou ser a melhor das bisavós enquanto teve forças.
Não conheci ninguém mais disponível, mais prestável, mais desejosa de ser útil, sempre pronta a ajudar – não era necessário pedir, ela oferecia-se e ficava ofendida se lhe dissessem que estivesse quietinha que não era necessário ela fazer aquele doce especial, ficar com o bebé no fim-de-semana, preparar a casa para a festa, vigiar se a empregada encerava bem os móveis. Vivia para isso, para tornar a vida dos outros mais fácil.
Quando as forças lhe faltaram, quando era perigoso sair sozinha porque caía na rua, ou se esquecia do gás ligado depois de tirar a panela, ou a artrose não deixava segurar numa agulha, o feitio começou a alterar-se. Muito queixosa dizia que queria morrer porque já «não servia para nada». Repetia milhares de vezes que «não queria dar trabalho» e o seu feitio ultimamente tornou-se amargo, não achava graça a nada e as pessoas enfadavam-se pelo que parecia um eterno pessimismo.
Eu creio que conseguia entender o seu sentir. O ter de sufocar o desejo de ser prestável, o não poder realizar o prazer de ser útil à sua maneira, dava-lhe um tal sofrimento que o mundo todo à sua volta escurecia e já nada a interessava nem valia a pena.
Deixou-nos ontem. Dizendo baixinho à filha – “Tenho pena de morrer porque nunca mais te vou ver…”
A imagem que guardo, aqui, fundo no coração, é da pessoa sempre presente, em quem se podia confiar incondicionalmente, o suporte, a âncora.
Adeus, minha querida.
Até sempre.

Emiéle

Publicado por populo às outubro 29, 2006 09:00 AM

Comentários

Lamento a tua perda.

Publicado por: bell às outubro 29, 2006 09:36 AM

É esse o último passo da vida, todos o esperamos, mais cedo ou mais tarde, mas que fazer? Quando chega, é sempre a mesma coisa, esta sensação de vazio, e a memória povoada de lembranças. Lembremo-nos, de tudo de bom que nos vão deixando, os que partem, e do papel construtivo que tiveram em nós.
Estranhei o desenho de ontem, mas já pressagiava, quanquer coisa.
Estou contigo!

Publicado por: josé palmeiro às outubro 29, 2006 09:36 AM

Um grande beijo amiga.

Publicado por: Farpas às outubro 29, 2006 09:52 AM

Como acabei de escrever no post debaixo, com aquele desenho tinha a certeza de que vinham aí más notícias. O blog todo o dia parado, à noite aparecia uma imagem de abatimento, só podia ser
coisas grave.
Foi bom teres desabafado. Há pessoas assim, tão generosas que no final da vida ficam 'amargas'por já não serem capazes de manter essa sua maneira de ser. Também as conheço. Que descanse em paz.

Publicado por: Joaninha às outubro 29, 2006 10:52 AM

Um beijo para vocês todos.
Devo contudo um esclarecimento que o modo como o post acima escrevi obriga a isso. O meu desgosto é realmente muito grande porque ela fez parte da minha vida, mas não é da minha família de sangue. Só que os afectos são muitas vezes superiores aos laços de sangue como se sabe...
Este fim-de-semana foi sinistro, e apesar de ter escrito outro post apaguei-o já. Ninguém ia acreditar que em 24 horas morreu esta grande amiga, eu soube do falecimento - há mais de 15 dias - de uma prima/tia que vivia a 8 horas de fuso horário, e sei que está em risco de vida a sua filha uma prima quase irmã.
Estas coisas não podem acontecer, pois não? Só aos «outros» ou no cinema!!!

Publicado por: Emiéle às outubro 29, 2006 12:17 PM

Como podiamos imaginar na Sexta á noite, não é amiga??

Mas podem. Às vezes a vida assemelha-se demasiado á ficção. Até nestes momentos. Ou sobretudo neles?
Um beijinho aqui. o outro já seguiu. Vai continuar a seguir. Não resolve...é apenas um beijinho. Que a gente tem sempre a esperança que ajude um bocadinho.

Publicado por: isabel faria às outubro 29, 2006 12:21 PM

Isabel a vida é mesmo feita destes «alcatruzes». Sentimo-nos tão bem as 3, no jantar de sexta-feira (com o famoso doce e tudo!) - e a essa hora já isto tudo estava em marcha sem eu saber.
A minha muito querida amiga das violetas, viveu a sua vida comprida, dura e difícil, e agora descansa. Um pouco o mesmo se passa com a minha prima/tia (mais perto de tia do que de prima) que tive o choque terrível de saber que já cá não estava só ontem. Mas não me conformo de não poder estar ao pé da minha «irmã». De não poder fazer nada...
Quero acreditar que seja apenas um susto, que ela recupere e ainda a possa abraçar com muita força da próxima vez que vier a Portugal.

Publicado por: Emiéle às outubro 29, 2006 01:08 PM

Um grande beijo, Emiele.

Publicado por: catarina às outubro 29, 2006 01:23 PM

Outro, catarina.
Sabe tão bem, sentir que estamos acompanhados quando nos sentimos na mó debaixo...

Publicado por: Emiéle às outubro 29, 2006 02:09 PM

Um beijo, emiele

Publicado por: méri às outubro 29, 2006 04:42 PM

Um beijo, emiele

Publicado por: méri às outubro 29, 2006 04:43 PM

Não te digo nada porque não sei o que te dizer e gosto de passar por essas sozinho. Contudo vai daqui um forte abraço, mudo.

Publicado por: Miguel às outubro 29, 2006 09:16 PM

Obrugada Miguel. Obrigada Méri. Pelo comentário e pelo email. Sabe bem contar com estas palavras de afecto.
entretanto uma chamada a longa distância diz-me que a minha «irmã» está a recuperar; que os médicos tinham considerado que era uma intervenção de altíssimo risco, mas estas horas passadas já se arriscam a dizer que correu bem; esta noite vou dormir...

Publicado por: Emiéle às outubro 29, 2006 09:17 PM

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