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setembro 25, 2006

Caderno de Capa Castanha VII

Os divertimentos
« - Há uma coisa que tenho curiosidade em saber como era dantes: tempos livres, brincadeiras, divertimentos. Como se passava na sua infância?
- Esse aspecto era muito diferente de hoje, Clara, muito. Aí, a distância é mesmo enorme. Mas queres saber as distracções das crianças ou dos adultos?
- As duas, madrinha, já agora.
- Então primeiro as nossas. Nessa altura os adultos não tinham nada a noção, como hoje há quem pense, de que se devesse ‘entreter’ a criança. Na verdade nós entretínhamos a nós mesmos como podíamos. Deves levar em conta que as famílias eram mais numerosas, havia muito menos filhos únicos e portanto o mais natural era brincar-se com irmãos, primos, vizinhos. Decerto também havia filhos únicos, como foi o meu caso, e aí havia que puxar pela imaginação! Estou mesmo a calcular que se um de nós tivesse a triste ideia de perguntar à mãe ou pai “o que é que vou fazer?” a resposta era uma tarefa que nem sempre seria do seu agrado - “ajuda-me a dobar esta meada de lã”, ou “leva estas coisas para a arrecadação” ou “vai-me comprar um litro de petróleo” – porque a pergunta seria interpretada como uma oferta de trabalho nunca um pedido para que o adulto descobrisse a que é que nós íamos brincar! E, claro está, havia brinquedos mas nada que se parecesse com a tremenda indústria que existe hoje. Os brinquedos estavam muito organizados – meninas com bonecas e tachinhos, meninos com bolas, comboios, berlindes. Mas a maioria dos brinquedos fazíamos nós. Puxava-se muito pela imaginação! Caixotes, cortinas velhas, latinhas, tudo o que era desperdício era aproveitado para se brincar. E, tal como hoje, brincávamos muito ao faz de conta - «às mães e às filhas», aos «polícias e ladrões», «aos médicos», «às guerras», «às escolas»… E também os jogos colectivos, às escondidas, a linda falua, jogos de roda, a macaca.
Como eu disse, as brincadeiras estavam muito divididas por sexos. As meninas também se mexiam muito mas para saltar à corda, por exemplo, ou correr na ‘apanhada’, e brincávamos aos jantarinhos, ou a vestir bonecas com vestidos feitos por nós, ou «às casinhas». Os rapazes, juntavam caricas e faziam corridas dando-lhes piparotes certeiros ao longo das pedras dos passeios, brincavam às guerras com espadas de madeira, e jogavam ao berlinde e, claro, à bola.
Como eu vivia em Lisboa nas ‘avenidas novas’, não me deixavam brincar na rua como muitos meninos da minha idade, mas havia sempre pequenos jardins perto, e aí encontrava outras crianças. Era chegar ao pé delas e perguntar: «Também posso brincar?» Pronto! Mais uma para a roda, ou para saltar a pé coxinho.
E sabes? Adorava também não fazer nada e ficar apenas à janela a observar o que se passava na rua. Era tão interessante, pelo menos para mim. Sonhava.
Ai, Clarinha, fizeste-me tantas saudades.» Clara

Emiéle

Só hoje ( terça) tive acesso à foto que devia ilustrar este post.
Mesmo com atraso, quero deixá-la aqui, cá está:

brincar.jpg

Publicado por populo às setembro 25, 2006 05:00 PM

Comentários

falta aqui o pião, pregar partidas e, a principal: caçar grilos!

Publicado por: SaltaPocinhas às setembro 26, 2006 12:14 AM

Deve ser, mas lembra-te que a entrevistada da Clara vivia em Lisboa e a experiência da caça aos grilos era mais rural... :D
De resto, tens razão, só que imagino que ela não fez assim uma lista completa. Até eu me lembrei de um, que era do meu tempo, e hoje se faz pouco - o jogo das prendas.
O fundamental que aqui foi transmitido e veio a propósito, é que não são precisos brinquedos muito sofisticados para uma criança brincar, nem dantes era costume os pais preocuparem-se se os filhos estavam bemm ocupados ou não.

Publicado por: emiéle às setembro 26, 2006 06:47 AM

Fiquei tão emocionada com este texto! A "mensagem" claro que sim, está bestial, essa coisa das brincadeiras e de entreter as crianças antigamente. Mas o que mexeu comigo foi a frase de dobar a meada de lã...:)

Publicado por: catarina às setembro 26, 2006 09:46 AM

Olé Catarina! Uff, ainda bem que agora estão a entrar. Eu hoje ainda 'ando por aqui' como o outro, e posso responder antes que me cortem o pio outra vez!
É claro que isto é um testemunho bastante «antigo», tudo isto se passa na década de 40, apesar de muitas coisas não estarem assim tão datadas. E tens razão, tinha-se de dobar a lã (ainda há uns 30 anos se fazia isso) e o ajudante estendia as mãos abertas e paralelas para a meada ficar esticadinha. Por outro lado a pessoa que conta as memórias vivia em Lisboa portanto muita coisa é de citadina, na província devia ser diferente, mas eu não posso alterar.

Publicado por: emiéle às setembro 26, 2006 09:55 AM

Olhem, acabei de conseguir a foto que ficava aqui bem. O post já tinha entrado mas decidi meter na mesma a foto! Pelo que soube estes eram os brinquedos todos que ela tinha, e estava bem contente!

Publicado por: emiéle às setembro 26, 2006 10:30 AM

Olha, ainda bem que ontem não consegui comentar. Há males que vêm por bem. Adorei a foto. Que encanto, Emiéle...
E apesar de eu ser já doutra geração, a minha mãe fala muito desta maneira - os meninos entretinham-se sozinhos, e como aqui diz com graça, se fossem perguntar o que é que haviam de fazer, assim tipo enjoado, recebiam era logo uma tarefa a sério! lol
É claro que hoje há muita coisa boa, e creio que a tua «entrevistada» já o tem dito, mas este estímulo à creatividade era bom que fosse recuperado. Não vir a papinha toda feita.

Publicado por: Joaninha às setembro 26, 2006 10:46 AM

Escrevi isto de manhã. Nem de propósito (parecia que estavam a gozar comigo) não entrou. Vou ver se agora consigo:


Ontem não consegui aqui comentar de modo que hoje começo por aqui para não deixar fugir este post.
Já te disse que ando a coleccionar estes "Era uma vez..." não disse. Acho que até te aconselhei a dares um nome à narradora, e tu desta vez chamaste-lhe 'madrinha', enfim... tá bem...Preferia um nome mesmo, em vez de «madrinha da Clara».!
Como todos os outros, este post é um testemunho formidável. Podia ser dado numa cadeira de Sociologia da Família.
Continuem - a Clara a perguntar, a madrinha a contar e tu a publicares.
:)

Publicado por: Gui às setembro 26, 2006 03:40 PM

Ontem não consegui aqui comentar de modo que hoje começo por aqui para não deixar fugir este post.
Já te disse que ando a coleccionar estes "Era uma vez..." não disse. Acho que até te aconselhei a dares um nome à narradora, e tu desta vez chamaste-lhe 'madrinha', enfim... tá bem...Preferia um nome mesmo, em vez de «madrinha da Clara».!
Como todos os outros, este post é um testemunho formidável. Podia ser dado numa cadeira de Sociologia da Família.
Continuem - a Clara a perguntar, a madrinha a contar e tu a publicares.
:)

Publicado por: Gui às setembro 26, 2006 03:41 PM

Olha, olha!
Só de riso. Então o comentário que aqui deixei de manhã ficou guardadinho e decidiu entrar um minuto depois daquele em que o repetia. É de loucos.

Publicado por: Gui às setembro 26, 2006 03:45 PM

Para além do texto do post, que também aprecio muito, quero sublinhar que a foto antiga é um encanto. E a menina da foto, que coisinha querida, tão compenetrada a lavar a roupa! :)

Publicado por: Tess às setembro 26, 2006 04:32 PM

eu não sou da década de 40, sou da província e ainda no inverno passado me fartei de dobar lã (o meu marido segura na meada e eu faço o novelo) porque no Natal corri as meninas da família todas a cachecóis tricotados por mim (em ponto inglês) e ficaram muito fofinhos!!

Publicado por: SaltaPocinhas às setembro 26, 2006 06:51 PM

eu não sou da década de 40, sou da província e ainda no inverno passado me fartei de dobar lã (o meu marido segura na meada e eu faço o novelo) porque no Natal corri as meninas da família todas a cachecóis tricotados por mim (em ponto inglês) e ficaram muito fofinhos!!

Publicado por: SaltaPocinhas às setembro 26, 2006 06:55 PM

Que maravilha, amiga. O texto já sabes...com a fotografia é como se tivessem sido feitos um para o outro...o texto para ilustrar a foto, ou vice-versa. Apesar de também já ter vindo um bocadinho depois, há tantas coisas em que ainda me revejo...eu juro que tive um tanque daqueles.

Publicado por: isabel faria às setembro 26, 2006 08:18 PM

Oi, Saltapocinhas e Zabel!!!!
Quanto à Saltapocinhas: Claro que os cachecóis feitos à mão têm outro 'calorzinho', mas há tanto tempo que não faço tricot (eram camisolas para o meu filho pequenininho) que tinha ideia que agora já vinha tudo em novelo... OK, viva o teu marido paciente.
Isabel, aqueles tanquezinhos eram bem jeitosos. :) E pelo que sei, o boneco que ali se vê tinha o corpo mole cheio de um enchimento qualquer e a cabeça é que era de loiça pasta de cartão.

Publicado por: emiéle às setembro 26, 2006 08:36 PM

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