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setembro 18, 2006

«Um Caderno da Capa Castanha» VI

Ir à praia «Acho tão interessante, Clara, comparar as minhas idas à praia em pequenita com a actualidade. As minhas férias eram bem grandes, como hoje também o são as das crianças, e pareciam-me enormes. Por uns tempos eu ia para a aldeia, perdida lá no sul, casa de família do meu pai, depois alugava-se uma casa na Nazaré ou em S. Martinho, e íamos todos apanhar o ar do mar, mas do que recordo mais eram as idas à praia com a minha mãe, ainda no início do Verão. Uma festa, para mim!
Acordava noite escura. Que excitação! Depois com o arranjar-me, comer, sair de casa, recordo que já havia luz quando se saía para a rua. Nós não tínhamos carro, aliás como nenhum dos amigos dos meus pais. Era ainda um luxo muito grande nessa época. Portanto a ida à praia era, naturalmente, de transportes públicos. Dava a mão à mãe e lá íamos, eu aos saltinhos e muitas vezes largando-lhe a mão para me sentir independente, até à paragem do eléctrico. Como era tão cedo, apanhávamos um eléctrico que me lembro chamar-se “carro operário” porque quem o usava eram sobretudo trabalhadores dessa classe. Os bilhetes eram mais baratos e comprava-se logo um de ida e volta.
Aí já era uma festa, para mim! Era Verão mas estava ainda fresquinho, e se possível eu ia à janela a apreciar o caminho, entusiasmadíssima. Chegávamos ao Cais do Sodré, comprávamos outros bilhetes e esperávamos um comboio. Claro que não havia tantos comboios como hoje, e eram muito mais sujos porque eram movidos a carvão. De vez em quando apitavam forte e soltavam uma fumarada negra… Mas era uma aventura para mim e sentia-me radiante. De comboio lá se ia, até Carcavelos ou Parede, calculo que as praias de que a minha mãe mais gostava porque era sempre para aí que se ia. E as distâncias parecem-me tão diferentes… Era capaz de jurar que em Carcavelos a praia era longe da estação, mas não deve ser porque hoje não o é. A memória prega-nos partidas, ou são os olhos de criança que vêm as coisas de outra forma.
Bem, o certo é que se chegava à praia bem cedinho, ainda havia muito pouca gente e alugávamos logo um toldo. Isso fazia parte da festa, o luxo daquele telhadinho de lona, só para nós! Não se usava guarda-sóis individuais, e os toldos não deviam ser caros, assim como as barracas, que tinham a vantagem de se poder mudar lá de roupa. Mas a minha mãe mantinha-se vestida e eu, como criança, mudava mesmo ali de roupa. Os fatos de banho eram tão pudicos! Os dos homens tinham um peitilho para tapar a parte do peito, e os das senhoras uma saiazinha que também tapava as curvas mais indiscretas.
Já começava então a fazer calor. Ia com o meu balde apanhar água ao mar e vinha fazer bolinhos de areia, ou então passeávamos ao longo da praia a apanhar conchinhas. Cheirava tão bem!!! Lembro-me de um banheiro, a quem dava a mão para dar uns mergulhos, porque a minha mãe, mesmo arregaçando o vestido não podia entrar no mar. E aliás os banheiros eram mesmo …para dar banho!
Passavam umas vendedoras de bata branca, a apregoar bolos, mais ou menos como hoje, mas nessa época havia muitas e era a única forma de se comer alguma coisa na praia – não me lembro de haver bares ou cafés. Aquela bola-de-berlim a meio da manhã, era uma delícia e como não havia embalagem para líquidos, para matar a sede a minha mãe levava fruta, um cacho de uvas, uma pêra.
E era tudo. Porque pelo meio-dia, tanto quanto me lembro, regressava a casa. No caminho de retorno eu vinha já mais murcha e um bocadito cansada. O ar do mar, as corridas pela borda da água, as construções na areia, e o apetite para o almoço, já me faziam rabujar e sentir que a volta era mais comprida do que a ida… Mas trazia no bolso as conchinhas que tinha apanhado para fazer um colar, e a recordação do cheiro a mar, da textura da areia, do azul do horizonte. Uma bela manhã, e…no dia seguinte havia outra igual» Clara

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Emiéle
(este texto estava escrito há mais de um mês, mas... ainda não tinha sido altura certa; agora também não é, mas alguma vez terá de entrar)

Publicado por populo às setembro 18, 2006 01:15 PM

Comentários

Eu dava como conselho a quem te começasse a ler agora, que iniciasse esta série pelo 1º "fascículo". Sem saber que a narradora nasceu em 1940 (fui confirmar) algumas das coisas que ela conta podem fazer confusão.
De qualquer modo quero saudar calorosamente, o reinício desta série!!! Por mim, adoro-a!

Publicado por: Tess às setembro 18, 2006 05:27 PM

Viva!!! Voltou a amiga da Clara! (mas porque raio é que retiveste este texto desde o Verão???)
Vou mostrá-lo aos meus pais, para ver o que dizem. Até aqui, nos outros casos ficaram para ali nostrálgicos que eu sei lá...
Tenho junto estas histórias todas numa pastinha à parte. Claro que agora com estão ali no "Era uma vez..." já não é preciso, mas a gente sabe lá se a weblog rebenta e nunca mais temos acesso ao Pópulo...? Assim fico com eles e mai nada!

Publicado por: Joaninha às setembro 18, 2006 06:02 PM

E eu que ando sem tempo para vir aqui....ficas-me guardada para o fim-de-semana linda, vou actulizar-"te".
Um beijo

Publicado por: Mar às setembro 18, 2006 10:40 PM

Olha que essa imagem da weblog a rebentar parece muito realista! Devia também fazer uma cópia das coisas de que gosto mais... :)
Em resposta, ao 'porque é que retive este escrito' tanto tempo, é porque estava a querer ter ali as Categorias abertas e isso demorou algum tempo. Acho que com as Categorias, como vocês confirmaram isto fica tudo arrumadinho, e pode ler-se de seguida.
E faço minhas as palavras do conselho da Tess: realmente convêm para quem não leu nenhum destes depoimentos, começar mais atrás, porque de vez em quando há referências a coisas já ditas.

Publicado por: emiéle às setembro 18, 2006 10:41 PM

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