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agosto 23, 2006

"Um caderno de capa castanha" ( V)

E a Clara continuou a registar aquilo que lhe estava a ser contado:
«O meu início na leitura e escrita, é interessante pelo contraste com os tempos de hoje. Começando pelos materiais. Só tive direito a usar uma caneta de tinta permanente para fazer o exame da 4ª classe, e isso foi um luxo. Aprendíamos a escrever com as canetas que hoje vês nos filmes antigos – um aparo de metal que se enfiava na ponta de um suporte e depois se molhava no tinteiro que as carteiras tinham a meio. Podes imaginar a dificuldade e os acidentes… Se o aparo trouxesse tinta a menos não escrevia, se trouxesse tinta a mais caía um borrão! E o desgosto quando acontecia estar a linha já toda escrita e distraidamente passar um braço antes da tinta estar seca e ficar tudo esborratado e ilegível! Estás a ver que a dificuldade não era apenas escrever sem erros e com letra bonita, era a própria técnica que atrapalhava. A leitura, para mim foi muito fácil. O método foi a Cartilha Maternal de João de Deus, e avancei muito depressa na leitura. Sentia um profundo prazer em conseguir ler. Andei tão depressa que a professora, um dia considerou que eu tinha dificuldades na escrita, (pudera, com aquele sistema!) e me ameaçou: não me deixava avançar na leitura até eu escrever com perfeição. Como pedagogia há bem melhor! Lembro-me que me esforcei loucamente por fazer uma letra bonita para poder continuar a aprender a ler usei uns “cadernos de duas linhas” que ajudavam a controlar a letra. Consegui!
Na aritmética, para além da tabuada, decorada em coro e numa cantilena, faziam-se umas contas enormes e sem nenhum interesse. Pelo menos na minha escola, eram essas contas gigantes e, mais para diante, uns problemas estranhos a respeito de “torneiras a deitar água” e “comboios em velocidades diferentes”. O ensino era à base da memória, muito treinada na época. A minha memória não era grande coisa, mesmo em miúda. Quero dizer, eu adorava decorar poesias, por exemplo, ou textos que achasse bonitos. Esse tipo de coisas, fixava-as sem custo, logo à primeira. Mas todos os afluentes dos rios de Portugal e colónias, ou as estações de caminho de ferro da linha de Bragança…era uma dificuldade.
O conteúdo dos textos dos livros de leitura, como já calculas, era o mais conservador possível. Os valores eram Deus, Pátria e Família encarados de um modo que hoje chamaríamos “fundamentalista”. Incutia-se um respeito cego pelos superiores, e compaixão pelos pobrezinhos que ‘deviam saber qual era o seu lugar’. O Pai era o chefe absoluto da família, com todos os direitos sobre a mulher e filhos.
Como nada disso era praticado na minha família, calculas que desde cedo me tornei crítica e contestatária.» Clara

Emiéle

Publicado por populo às agosto 23, 2006 09:11 AM

Comentários

Hoje chego tarde porque só agora, pela hora do almoço, me dá para comentar. Há dias assim, não é? O que não quer dizer que não tivesse passado por cá mas sem muito tempo.
Estou muito contente com o regresso da Clara!
Penso que te cheguei a contar que tinha feito copy dos outros textos dela, nesta linda história do "Caderno de Capa Castanha" porque achava-os tão importantes que preferi guardá-los fóra do blog, numa pasta minha. Aliás, agora está fácil com esta coisa das Categorias, mas ainda há uns 15 dias era quase impossível descobrir onde é que estavam estes posts!
De resto não sei se gastei todos os adjectivos das outras vezes, mas posso "reciclar" alguns: é interessantíssimo este (...?) depoimento. Em tão pouco tempo como as coisas mudaram e os modos de encaram tanta coisa.
Oxalá agora esta colaboração seja agora mais regular.

Publicado por: Joaninha às agosto 23, 2006 01:28 PM

Do tempo da pena de aparo conservo um calo no dedo médio da mão direita. Também o indicador ficou torto ...

Publicado por: Inês às agosto 23, 2006 02:04 PM

Olá Joaninha e Inês!
Quanto à "minha" Joaninha já sei que quando não está de férias é uma comentadora diária. E vais por aqui abaixo falando nos posts todos, o que excelente para o meu moral e para a média de comentários... :D
Realmente eu também faço muito gosto em continuar com esta colaboração da Clara. Tenho mais uns textos, que tinha guardado para deixar "à vista" quando tivesse isto arrumado desta maneira. Como diz a Joaninha, da outra forma era uma confusão!
Inês: Bolas que fazias força a escrever!!! e não entortavas o aparo???? Mas era assim, não era? Hoje com as bic e esferográficas isso parece um outro mundo!

Publicado por: Emiéle às agosto 23, 2006 02:14 PM

pois é... se calhar fazia muita força . Canhota de nascença, a minha direita era pouco esperta (ainda hoje é) e só tinha força.

Então posso acrescentar que era 'proibido' escrever, ou fazer qualquer actividade 'nobre' com a mão esquerda. E eu era concerteza canhota profunda.

A caneta de tinta permanente, no exame da 4ªclasse, acentuou o calo. Aliás parece que só nos últimos 15 anos, com o teclar da escrita, o dedo deixou de doer. DDD

Publicado por: Inês às agosto 23, 2006 02:28 PM

Pobre Inês!
É interessante que eu tenho uma lateralidade um nadinha indefinida mas a verdade é que sou filha de dois (logo dois!!!!) canhotos contrariados. O meu pai contava que lhe chegavam a prender o braço esquerdo com um cordel para o obrigar a usar só a mão direita... Com a minha mãe não foram tão radicais, esses meus avós eram formidáveis, mas na escola nem pensar em pegar no lápis ou caneta com a esquerda. Portanto ela fazia tudo à esquerda, costura, cortar comida, tudo, mas escrevia com a mão direita.
E eu, que acho que sou dextra mas, educada por estas duas criaturas confusas, também fiquei um pouco baralhada!!!

Publicado por: Emiéle às agosto 23, 2006 02:59 PM

Só para dizer que gostei, achei deveras interessante e de valor documental, isto para lá das outras intenções que surjam. Vou ler os anteriores, provavelmente farei como a Joaninha, guardando-os, numa pasta "castanha", e a seu tempo, direi o que me aprouver. Talvez escreva, com caneta de aparo e em caderno de duas linhas, mas sem passar fora.

Publicado por: José Palmeiro às agosto 23, 2006 04:16 PM

Só para dizer que gostei, achei deveras interessante e de valor documental, isto para lá das outras intenções que surjam. Vou ler os anteriores, provavelmente farei como a Joaninha, guardando-os, numa pasta "castanha", e a seu tempo, direi o que me aprouver. Talvez escreva, com caneta de aparo e em caderno de duas linhas, mas sem passar fora.

Publicado por: José Palmeiro às agosto 23, 2006 04:20 PM

Hoje é que venho mesmo tarde (eu que sou como a Joaninha, visita diária, e sem faltas!) e fiquei radiante por encontar esta surpresa: «o regresso da velha senhora» se me permites a citação.
Para os tais novatos como o Zé Palmeiro, isto são umas "memórias" que a Emiéle descobriu através desta "Clara" -e aqui já me baralho com este nick... - de uma senhora que nasceu exactamente em 1940. Está contado de uma forma que pode ser exactamente verdade, e se o não é a reconstituição está impecável. Eu, como o Farpas (olá Farpas!!!) sou uma fã!

Publicado por: Gui às agosto 23, 2006 05:18 PM

Olha quem voltou!!!!
Boa ideia!
Oh Emiéle, e não podias dar um nome à tua personagem? Aqui a Gui chamou-lhe a «velha senhora» o que é certo, mas faz impressão porque ela anda a contar histórias de miúda...
Vá lá... Um nome...
Pensa lá num nome de época.

Publicado por: king às agosto 23, 2006 05:23 PM

Pois eu lembro-me bem, destes textos. escrevestes os últimos em Abril e fiquei à espera da continuação. Porque tal como está feita dava mesmo a ideia de que ia continuar. Ainda bem.
E esta parte é giríssima!!!!Nem imagino o que seria essa de escrever a molhar de minuto a minuto o aparo no tinteiro. E também me lembro de ouvir falar nessa coisa dos "cadernos de duas linhas".Eram umas linhas paralelas muito juntas e tinha de se escrever entre uma e outra para a letra sair certinha! lol
Os meus pais também me contam que tinha de se saber as linhas de comboio!!! Mas que raio de ideia?! Para quê? Não havia horários nas estações?

Publicado por: Raphael às agosto 23, 2006 09:03 PM

Também escrevi com pena de aparo na 2ª classe. Na 3ª já tive direito a uma caneta de tinta permanente que se começaram a usar nessa altura.
Tenho as minhas provas aí guardadas e logo na primeira que fiz, na 2ª classe tive "mau" na cópia por causa dum borrão!!
Devia ser dificilimo aprender a escrever e logo com aquela coisa! Às vezes o bico abria e as letras ficavam com 2 riscos...
E as lousas e os ponteiros? fartei-me de apanhar reguadas na 1ª classe por fazer o ponteiro chiar na lousa e arrepiar a professora!
Mas já não tive de decorar as linhas todas nem os afluentes...Uffff!! E, nessa altura nunca ninguém se lembrou de ensinar aos putos a consultar um horário!

Publicado por: SaltaPocinhas às agosto 24, 2006 12:32 AM

Acho que sim, pela tua idade, mas pergunta à tua mãe como era... De certeza que decorou as linhas de caminho de ferro!!! Repara que estas recordações são mais antigas.

Publicado por: Emiéle às agosto 24, 2006 06:30 AM

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