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agosto 21, 2006

Remorsos

Tenho uma amiga muito velhinha. Muito, muito velhinha. Já aqui falei nela creio até que por mais de uma vez. É uma senhora muito inteligente, extremamente culta, que sempre viveu num meio intelectual – filha de escritor, viúva de pintor – e cultiva, interessada, quase todas as facetas da cultura. Tem um enorme humor que aplica por vezes cirurgicamente, apontando o ridículo de uma situação de um modo completamente desconcertante.
Vive numa casa enorme, enorme ainda mais para quem vive sozinha com uma empregada, casa que tem a vista sobre Lisboa mais espectacular que me foi dado ver. Mas não tem filhos, nem sobrinhos directos, e vive agora bastante sozinha, sobretudo para quem tem mais de noventa anos e pouca saúde. Eu, quando posso, faço-lhe uma ou outra visita, mas reconheço que são demasiado rápidas. A vida deixa-nos sempre com tanta ocupação pendurada que se vai deixando para mais tarde o que não nos parece tão prioritário. Contudo, até agora ia abafando um sentimento de culpa porque, de vez em quando, lá fazia um telefonema e ia conversando um pouquinho. Sei bem que não era o que devia fazer, isto era uma espécie de “aproximação” de lotaria, mas ia funcionando e atenuando esse sentimento de culpa.
Mas das últimas vezes que quis usar o esquema do telefone, para “fazer visita” a coisa correu mal. Infelizmente a idade está a roubar-lhe um sentido importante que é o ouvido. A minha amiga está a ouvir tão mal que os telefonemas são muito penosos. Ela a repetir, “quê???” e eu a gritar deste lado, absolutamente aos berros e mesmo assim quase sem resultar… Porque o sistema do berro serve para dar um recado, uma informação curta, mas não para travar uma conversa demorada que substitua uma visita.
Não. Sinto o coração muito pesado. Custe o que custar, a gente “arranja” sempre tempo quando o que queremos é muito importante.
Tenho de a ir visitar, e não passa desta semana !

Emiéle

Publicado por populo às agosto 21, 2006 08:45 AM

Comentários

Como eu te entendo. Esta vida, tem dessincronias que, quando paramos para reflectir, nos assaltam e nos fazem roer de remorsos, por não termos tido tempo, para isto ou para aquilo. Só posso dar um conselho, vai, sem demoras visitar a senhora, tu e ela merecem, esses momentos.

Publicado por: josé palmeiro às agosto 21, 2006 09:39 AM

Portantos, temos aqui um dos posts da Categoria "Intimidade" :) Fizeste muito bem, nesta coisa da arrumação que deste.
Quanto ao tema, é o problema dos nossos idosos, não é? Como se faz, para aguerntar o aumento da "esperança de vida" conjugando com "qualidade de vida"?
Remorsos acho que não deves ter.
Pelo que contas tens feito o que podes, a vida hoje é muito complicada e o tempo cada vez menos. O certo é que também necessitamos de um pouco de tempo para nós próprios, não é?

Publicado por: Joaninha às agosto 21, 2006 09:39 AM

Compreendo-te tão bem!
Acontece-me exactamente o mesmo com alguns parentes velhotes...Até quero que eles se sintam bem, mas depois metem-se outras coisas, e vou adiando a visita e a sentir-me culpado apesar de ter a certeza de que não os abandono. Não é isso, mas não dou tana atenção como queria.

Publicado por: zorro às agosto 21, 2006 12:23 PM

Pois é, amigos eu "sei" isso. (obrigadinho pela solidariedade Zorro) Racionalmente encontro as justificações para a falta de tempo, mas agora acabou. Como me aconselha o Zé Palmeiro de um modo tão simpático, "merecemos" este encontro e não vai passar desta semana!

Publicado por: Emiéle às agosto 21, 2006 01:50 PM

Já experimentaste convencê-la a aderir a esta modernice dos emails? (Isto, pressupondo que a vista ainda não falha à senhora.)

Publicado por: sharkinho às agosto 21, 2006 02:46 PM

Oh Sharkinho!! Só tu! Ela é uma querida, e como disse inteligentíssima, mas tem mais de noventa anos! Uma internet era uma coisa que está para ela como o "Espaço 1999" estava para mim quando era criança. Como quero frisar, tem a casa forrada de quadros excelentes, tinha um piano onde até tocava (agora o artritismo não deixa) e gosta muito de música, tem salas com livros de cima abaixo (como disse o pai foi um escritor e poeta) e tem uma conversa muito interessante e espirituosa, mas... Computador?
Mas, como já disse, o mais provável é ir visitá-la da 4ª feira.

Publicado por: Emiéle às agosto 21, 2006 04:20 PM

É curioso que telefonei-lhe agora a preveni-la de que ia lá amanhã, e descobri que se falar muito pausadamente ela consegue ouvir-me melhor. Não é preciso gritar tanto, é mais uma questão de marcar bem as sílabas. Vamos ver se ao vivo consigo fazer-me entender...

Publicado por: Emiéle às agosto 21, 2006 09:11 PM

:)
(este é um sorriso de ternura, não é de brincadeira!)
Bonita reflexão Emiéle. E revejo-me tanto nela! É também uma espécie de ciclo vicioso: estamos uns tempos sem fazer visitas e depois ficamos envergonhados e custa-nos a ir lá, etc, etc,... Quanto mais tempo se passa mais difícil é quebar o ciclo.
Claro que o telefonema, sempre ajuda. Mas, tal como tu, também me debato com o problema da surdez do meu avô. E quando é ao pé, até o gesto pode ajudar a compreensão, mas pelo fio...
Olha, este post veio fazer tocar uma sineta na minha consciência. Também vou ver se vou lá esta semana!

Publicado por: Gui às agosto 22, 2006 09:44 AM

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