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agosto 22, 2006
A Charia
É curioso que quando falamos em “Islamismo” uma grande parte das pessoas evoca de imediato países do médio oriente ou norte de África, onde vive a maioria dos árabes, esquecendo que a África negra e uma enorme parte da Ásia também é islâmica. É uma religião fortíssima e com princípios muito rígidos, e valores que definem toda uma vida social.
Uma das regras mais impressionantes é a obediência à Charia . Rigorosa. Absoluta. Total.
Para um europeu do século XXI, custa a imaginar apesar de durante a Idade Média o conceito não ser assim tão estranho (não esquecer que os Reis tinham de ser aceites pelo Papa, ou seja o poder temporal estava sujeito ao poder da Igreja)
Ora um dos locais onde se verifica que a famosa Charia é cumprida com um rigor tenebroso é na Nigéria. Já por diversas vezes correram na net abaixo assinados, pedindo clemência para mulheres condenadas por adultério que deveriam ser lapidadas, e desta vez a notícia chocante, tem de novo a ver com infidelidades: um marido suspeitando que a mulher lhe era infiel cortou-lhe uma perna. Como pelos vistos a suspeita não se deve ter confirmado – porque creio que se assim fosse ela seria até condenada á morte – agora aplica-se a Lei de Talião, e é ele que vai ser condenado a ter uma perna amputada.
Parece que, segundo a Charia, essa coisa da amputação é natural. Um castigo para quem se porta mal. É certo que cada país deve ser soberano nas suas leis e na forma como as aplica. Ainda em muitos lados é legal a Pena de Morte, por exemplo. Contudo as normas dos Direitos Humanos não deviam ter força em todos os países do Mundo?
Eu respeito muito a independência e a autonomia dos diversos Estados, mas … por vezes sinto um nó no estômago. Perante certos usos não há nada a fazer?
A comunidade internacional não tem qualquer intervenção?
Fico perplexa e chocada. Não tem a ver com o facto de ser “diferente”, tem a ver com o “ser errado” segundo as normas dos Direitos Humanos .
Emiéle
Publicado por populo às agosto 22, 2006 08:46 AM
Comentários
Oh, Emiéle! Estive um dia sem vir aqui ao Pópulo e agora tenho ali pra baixo uma dúzia de posts!!!
Assim não dá!
Olha, vou começar por baixo, porque esta do Charia tem muito que se lhe diga e tenho de pensar um pouco.
Publicado por: Gui às agosto 22, 2006 09:29 AM
E pronto! Dei a volta completa, são 10 horas e tenho de ir ao meu trabalho, mas este tema é de arrepiar. Para um europeu, como tu dizes, é inconcebível que se utilize a amputação como um castigo, seja do que for! E perante uma violação tão clara dos Direitos Humanos (fizeste bem em deixar o link) não se pode actuar?!!!
Publicado por: Gui às agosto 22, 2006 10:04 AM
Ele há coisas que estão ou deviam estar, totalmente ultrapassadas e essa da amputação é uma delas, mas há mais. As normalizações deveriam ter efeitos globais, mas, e os exemplos?
Será que o ocidente, é assim tão exemplar,na defesa e cumprimento dos Direitos Humanos, que sirva de exemplo e de padrão a alguém?
Publicado por: josé palmeiro às agosto 22, 2006 10:54 AM
Há ritos em determinadas sociedades que são verdadeiros actos de barbárie (nem me quero lembrar da excisão que fazem às meninas em África...)e que deveriam ter, como bem dizes, por parte da Comunidade Intercional, uma intervenção forte. Tudo bem que tem a ver com religião e crenças e tal mas porra! (desculpem-me a expressão) É possível desenvolver campanhas junto destes povos, ao mesmo tempo que para lá se enviam médicos da AMI, pessoal da UNICEF, etc e até acredito que estejam a ser desenvolvidas mas que se vejam resultados.
Publicado por: Mar às agosto 22, 2006 11:35 AM
Estás linda! :-)))
Publicado por: Mar às agosto 22, 2006 12:08 PM
Na realidade, não há muito a fazer. À medida que a descolonização consolida a libertação desses povos do jugo europeu, e os líderes dos movimentos de libertação vão sendo substituídos por gerações de menor craveira a diversos níveis - intelectual, humanista, universal - também fruto do fim da guerra fria, acaba por ser a lei do mais forte a imperar. Grosso modo, é assim que correm as coisas nos nossos tempos. Veja-se, por exemplo, o que já começou a acontecer na RD Congo. Bom, mas voltando ainda à religião e ao que se passa, é natural que para a manutenção do poder sem recorrer a banhos de sangue à la ditadura brutal, em desuso, porque não fazer algumas cedências a alguns senhores que assim mantêm intactos os interesses instalados? Afinal, a Nigéria não são 2 países?
Mesmo a sugestão de serem as próprias ONGs a desenvolverem acções de sensibilização, isso acaba por ser extremamente complicado e delicado. Quantas não foram expulsas de diversos países por acções contrárias ao que é permitido?
Muitas são as acções possíveis por parte do mundo dito civilizado. E que até tem feito algumas sem resultados por aí além. O Zimbabwe mudou alguma coisa? Isolar este ou aquele país alterará alguma coisa? É triste e é a realidade. A barbárie para alguns, legitimada internamente pelos detentores do poder, continua a servir os interesses de alguns "grupos". Quanto ao Ocidente, limita-se a "ouvir" o que ONGs têm para dizer e reportar, manifestando o seu choque, enquanto continua a defender os seus interesses desde que não o chateiem muito.
Publicado por: Miguel às agosto 22, 2006 12:57 PM
'Péra aí!!! Este último comentário a Mar, levou-me a ver o que é que o tinha provocado... Aliás quando agora voltei a entrar no Pópulo "senti" que havia uma diferença a não estava a ver onde.
Achei!!!!! É a tua fotografia ali à esquerda!
Tá formidável! Lembro-me que foi uma criança tua amiga que o desenhou, não foi? Fizeste um post sobre isso, mas já nem sei dele.
Este blog está mesmo airoso!
Passando agora a coisas tristes, faz realmente impressão como uma parte ainda tão grande da humanidde pode viver dessa maneira. Como lembraste, a Europa na Idade Média também praticou atrocidades terríveis em nome da religião (queimar pessoas vivas e torturá-las de um modo horrível) mas se condenamos esses tempos não poderemos ficar impávidos com estas histórias de hoje!
Eu ainda acredito que a força da comunidade internacional seja suficiente para travar uma sentença tão bárbara.
(e já agora a mulher dele, ficou sem a perna e vive com ele? olha que também deve ser um martírio...)
Publicado por: Joaninha às agosto 22, 2006 01:05 PM
Upsss!!!
Emiéle, não sei o que o Dr. Freud diria, mas o meu lapso foi giro. É claro que o boneco que te representa não está à esquerda mas sim à direita porque é aí que está coluna...
LOL
Publicado por: Joaninha às agosto 22, 2006 01:08 PM
O meu comentário e o do Miguel entraram com pouco intervalo e não o tinha lido quando estava a escrever o meu.
Acredito que ele saiba muito mais do que nós dests coisas todas. Afinal está lá! Mas custa-me ser tão pessimista como ele parece ser. Será possível não se poder actual de nenhima forma? Até mesmo, porque em muitos desses países os governos de democracia não têm nada. São ditaduras de vários tons, mas são ditaduras. Porque é que ele pensa que isolá-los não dá? Será porque nesse caso todo o povo sofre? Mas de qualquer forma assim já sofre!
Publicado por: Joaninha às agosto 22, 2006 01:13 PM
Olá malta!
Cheguei agora ao Pópulo e vejo que este tema vos interessou, como eu também me interessei. De facto acho que o Miguel é muito realista, e acredito que tenha toda a razão. Contudo, podemos sempre esparar mudar a realidade, não é? A tal conversa de que "sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança..." lembram-se? Temos de sonhar ou estamos feitos!
Quanto ao outro ponto, realmente meninas Mar e Joaninha, sempre acrecentei a tal minha "fotografia" ali à direita (tinha de ser à direita, Joaninha, é onde a coluna está.... mas para compensar, se olharmos bem, aquilo que conta é o que eu escrevo e "isso" é na "coluna da esquerda" não é? )
:D
Vou ver se encontro o post onde meti este boneco, mas nem me lembro como é que lhe chamei...
Publicado por: Emiéle às agosto 22, 2006 01:54 PM
Apenas uma achega a este tema, porque na essência concordo com a opinião expressa no post e nos comentários: não confundam islamismo com "charia". É como confundir o cristianismo com a Opus Dei, ou pior.
Ok, duas achegas: quanto à questão dos Direitos Humanos, claro que isto deveria ser proibido, independentemente de soberanias nacionais; como para mim o deveria ser a pena de morte, ao abrigo dos mesmíssimos Direitos Humanos.
Força para o blog, que está interessante apesar de nem sempre concordar com o que nele se diz, e se puderem façam uma visita ao meu... altermundo.blogs.sapo.pt. Obrigado.
Publicado por: António Rufino às agosto 22, 2006 02:28 PM
António Rufino: estou aqui de passagem nas não quis deixar de sublinhar a importância do que dizes. Tens toda a razão. Caímos muitas vezes nestes radicalismos parvos, e a tua comparação esta correctíssima, seria como abranger em todo o cristianismo uma facção mais radical e intolerante. Uma coisa é o Islamismo - que a esmagadora maioria de nós nem conhece! - outra uma Lei islâmica radical.
Assim que puder vou fazer-te uma visita, sim senhor. Não agora, que vou já sair deste PC.
Publicado por: Emiéle às agosto 22, 2006 03:39 PM
Claro que ninguém acredita em ingenuidade por aqui.
Nenhum dos visitantes nem a autora.
Regras, regras absurdas são o que mais comummente tem governado parte do mundo.
E digo parte, pois talvez a maioria se limite a ser vitimas
Publicado por: zé às agosto 22, 2006 11:18 PM
Tens toda a razão, Zé. Não somos ingénuos, não. O mundo é muito duro, e como dizes a maior parte até é formado por vítimas desse sistema. Mas a verdade é que quem não é directamente vítima, mas também não quer ser "carrasco" tem o dever de denunciar ou transforma-se em conivente com uma coisa que desaprova.
Publicado por: Emiéle às agosto 23, 2006 09:05 AM
Interessante post até por sugerir um debate sobre questões actuais: essa "coisa" dos Direitos Humanos como é que é estabelecida? Por que critérios? Por quem? E já não falo da eficácia da sua aplicação...
Só para chatear: que sentido faz falar na independência e autonomia de países quando neles vigoram ditaduras (ou seja, são negadas a independência e a autonomia aos seus próprios cidadãos)?
Publicado por: pepe às agosto 23, 2006 11:03 AM