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julho 28, 2006

Vida ( quase eterna)

Acabei de almoçar com uma grande amiga.
Quando chegou ao pé de mim vinha trémula, comovida com uma situação por que tinha acabado de passar e durante todo o almoço esse foi o tema da nossa conversa.
A minha amiga já não é nova. Não aprecia que lhe digam que está “bem conservada”, apesar de o estar, porque se lembra inevitavelmente das latas e frascos de conserva…. Bem disposta, enérgica, com vitalidade, apesar dos anos. Ora quando vinha ter comigo ao restaurante ao passar numa rua ouviu chamar – «Teresa!» Olhou e não viu ninguém conhecido. “É para outra pessoa”, pensou. Mas repetiram «Ès a Teresa, não és?» e fixou melhor quem falava. Era uma senhora, que lhe sorria, e ia repetindo «Tu não estás a ver quem eu sou?! Mas tu, só podes ser a Teresa, porque és a cara do teu pai! Eu sou a Luísa S.!»
Clic! Um grande salto no tempo e a cara encaixou-se na memória. Aquela era, quer dizer ‘tinha sido’, uma menina, filha de amigos dos seus pais, com quem tinha brincado em criança. Mas essa época, a das brincadeiras em criança, tinha sido há mais cinquenta e tal anos! Depois disso nunca mais se tinham visto. Não dava para acreditar… Tinham sabido vagamente uma da outra, através dos respectivos pais, mas tudo muito vago e à distância.
O impressionante é que a outra repetiu várias vezes, «é espantoso como continuas igual ao teu pai!» e isso tinha mesmo de ser verdade, para ser reconhecida, meio século mais tarde, entre muita gente, no meio de uma rua! E esse facto dava-lhe um prazer imenso e profundo. Durante o nosso almoço contou de outras ocasiões, onde foi reconhecida por essa parecença. Já há vários anos, um senhor que subia num elevador, olhou para ela e perguntou-lhe: «Desculpe, mas não é a filha de fulano? Tem de ser! Estou tão impressionado, parece que o estou a ver a ele!»
Claro que nem é necessário dizer que o pai da minha amiga era uma pessoa extraordinária, que ‘marcava’ profundamente quem o conhecia. E ela, muito comovida, repetiu-me várias vezes “Era tão bom, que não fosse só por fora que eu fosse parecida!
Mas a nossa conversa de hoje tinha um toquezinho metafísico – a verdade é que pensávamos as duas que enquanto continuamos assim, através dos nossos filhos, não se pode dizer que morremos. Os genes estão cá, para os passar aos filhos dos filhos e a vida, esta Vida com maiúscula, está bem perto da eternidade.

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Emiéle

Publicado por populo às julho 28, 2006 05:00 PM

Comentários

experiência

Publicado por: Gui às julho 28, 2006 06:33 PM

Olha Gui, isto estava realmente enguiçado!
Eu escrevi o post e fui-me embora porque tinha mais que fazer e só agora voltei. realmente estava bloqueado e não entendo porquê. Experimentei os truques hbituais para "desbloquear" e nada resultou. Finalmente mudei a hora de entrada e "voilá!" esta coisa abriu...

Publicado por: Emiéle às julho 28, 2006 06:37 PM

Até que enfim! Isto estava de meter nervos. Nem imaginas as vezes que vim experimentar e sempre com a mesma resposta.
Queria comentar porque achei este post muito comovente. Tal como dizes na mensagem final, nos nossos filhos e filhos dos nossos filhos, e por aí fóra, existe o que mais se pode parecer com eternidade.
E é impressionante quando se vê um neto "igual" ao avô, ou uma filha que parece mesmo a mãe. É qualquer coisa de mágico isto da genética...

Publicado por: Gui às julho 28, 2006 06:50 PM

Já passei por situações semelhantes e dá-me um prazer enorme rever pessoas que já não via há várias
décadas. Por isso imagino o estado de emoção que esse reencontro representou para a sua amiga. E mudando de assunto. Vamos lá ver se este comentário entra, porque efectivamente a Weblog não melhorou nada continua com os mesmo problemas e sem soluções à vista. Só lamento porque tenho tido grandes dificuldades em comentar nos blogs dos amigos e isso irrita-me. Sim porque o meu problema pessoal ficou resolvido com a saída da Weblog.

Publicado por: congeminações às julho 28, 2006 07:06 PM

Amigo Raul/Congeminações, como se vê desta vez entrou! Desta vez a culpa foi em parte minha, porque escrevi aquilo sem depois confirmar se estava tudo em ordem. Mas lá que era estranho, isso era. Também já tenho pensado várias vezes em emigrar, mas como isto tinha melhorado um nadinha...
Quanto aos reencontros muitos anos depois e as parecenças tão grandes que parecem fotocópias dos pais, são para mim temas um pouco comoventes. Se calhar por isso escrevi com tanta emoção...

Publicado por: Emiéle às julho 28, 2006 07:23 PM

Também passei aqui à tarde sem conseguir entrar. até te mandei um email para o correio do blog! Se calhar não viste, porque pedia que o colocasses tu.
Gostei imenso deste texto porque me identifiquei muito. No meu caso sou igual à minha mãe, e fico muito vaidosa com isso. Acho que ela é uma mulher formidável e estou como a tua amiga, desejaria que a semelhança fosse por dentro e por fóra...

Publicado por: Tess às julho 28, 2006 08:12 PM

Pois é isso Tess. A parecença física é importante, mas muitas vezes o próprio feitio ou personalidade é também igual e isso então é formidável.

Publicado por: Emiéle às julho 29, 2006 12:02 AM

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