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junho 30, 2006

Vamos defender o Aljube

Todos estamos lembrados do que se passou com a sede da PIDE na António Maria Cardoso.
Esse branqueamento pelo esquecimento de um período tão negro e doloroso da nossa História recente, revoltou muita gente. Nessa linha de indignação de imediato se pensou noutros edifícios que poderiam seguir o mesmo destino se não existisse um movimento forte de cidadãos anti-fascistas.
Tem circulado um abaixo-assinado de antigos presos políticos, quer tenham passado pelas celas do Aljube quer noutra prisão política, que segue em baixo na ‘entrada alargada’. O texto inicial tinha sido concebido apenas para a assinatura dos presos políticos, mas considerando-se que muita gente mesmo sem ter tido essa essa terrível vivência gostaria de apoiar, acrescentou-se uma linha para abranger quem desejar solidarizar-se.
Para reforçar o que aí se diz, neste sábado, dia 1, está programada uma concentração, entre as 10:30 e as 11 da manhã, em frente à Sé de Lisboa.
Daí seguimos para o Aljube, logo a dois passos.
Não podemos aceitar de braços cruzados que se apague também a Memória do Aljube!

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Emiéle

NÃO APAGUEM A MEMÓRIA DO ALJUBE

Ao longo de mais de 30 anos a cadeia do Aljube, em Lisboa, foi um dos principais símbolos da repressão fascista.
Os presos eram aí encarcerados em celas com 2x 1 m, enxovias onde a cama era uma tarimba com 1,80 x 0,80m com um muito usado colchão em palha, sem lençóis. Não havia luz natural, mas uma pequena lâmpada que só acendia nas horas de refeição e um pouco antes do silêncio nocturno. Pela sua dimensão, onde só cabia uma pessoa, estas celas ficaram conhecidas como “curros”. O isolamento era total e as visitas de familiares, raras.
A estas condições de detenção juntavam-se outras não menos vergonhosas e vexatórias da dignidade dos presos: não tinham direito à posse de qualquer objecto pessoal, não podiam usar cinto nem atacadores, a leitura era proibida. Só tinham direito a um banho por semana, quando havia, no mesmo local onde evacuavam: por cima da “turca” colocavam um estrado de madeira.
Nestas condições estiveram encarcerados por longos períodos, que chegaram a atingir seis meses sem visitas, milhares de portugueses que lutaram contra a opressão do regime salazarista.
Devido a queixas várias, entre as quais da Amnistia Internacional, o Aljube acabou por
ser fechado em Agosto de 1965 e em 1968 Marcelo Caetano ordenou a destruição dos “curros”.

No mundo concentracionário do fascismo português, que foi uma realidade brutal, a cadeia do Aljube constituía a primeira etapa do que era um verdadeiro Roteiro do Terror: seguiam-se os longos interrogatórios, que chegavam a durar semanas, na sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso, em cujas salas foram infligidas as torturas do sono e da estátua e executados brutais espancamentos, os julgamentos no Tribunal Plenário, o Forte de Caxias, o Forte de Peniche e os terríveis campos de concentração do Tarrafal e de S. Nicolau.
O tempo de detenção dos presos, mesmo quando em cumprimento de pena, ficava sempre ao arbítrio da PIDE e durava o tempo que esta entendesse ao abrigo da famosa lei das “medidas de segurança” que estabelecia que o tempo de condenação podia ser prorrogado por períodos de três anos renováveis: em resultado disso muitos resistentes passaram longos anos na prisão, sem nunca saberem quando seriam libertados.

Por todas estas razões e porque se assiste a uma consistente tentativa de apagar a memória do que foi a resistência ao fascismo, quando o regime democrático para o qual estes resistentes contribuíram significativamente se mantém estranhamente desatento a este passado, os signatários, ex-presos políticos, tomam a iniciativa de apelar a todos os companheiros de luta para que se juntem a nós na exigência da recuperação do edifício do Aljube como local de memória da resistência ao fascismo.

Não consentiremos no branqueamento do fascismo nem na deturpação da luta dos resistentes!

Lisboa, 1 de Julho de 2006
Os Antigos Presos Políticos

Solidarizam-se com esta iniciativa

(versão de 19/6/06)

Publicado por populo às junho 30, 2006 12:00 AM

Comentários

Concordo em absoluto com a petição e sobretudo com o alargamento. Isto porque o tempo não perdura e para muitos, já só a memória resta.

Publicado por: josé palmeiro às junho 30, 2006 08:32 AM

Olá amigo!
Matutino, como eu...
Tenho sempre muito prazer em notar que há quem esteja em linha quando eu estou e me vai lendo.
Este post é tão sério que estou a pensar em o voltar a colocar mais acima para evitar passar desapercebido. NÃO PODEMOS ESQUECER nem deixar que se vá apagando tudo o que podia envergonhar os "senhores do estado novo"

Publicado por: Emiéle às junho 30, 2006 08:54 AM

Não sabia disto, mas é certo que temos de acautelar medidas deste tipo. Então o Aljube, ali naquele sítio, podia dar um belo hotel!!!
Bolas, escrevi isto e senti um arrepio!
Vou passar palavra, Emiéle.
E como raio se assina, quem não puder ir lá?

Publicado por: zorro às junho 30, 2006 10:19 AM

Olha que também acho que devias levar esta post mais para cima que só quem gosta de te ler de uma ponta à outra já chega aqui... Foi escrito ainda ontem à noite pelos vistos e não tem lá muitos comentários.
Bom, eu vou também passar palavra, como o Zorro.

Publicado por: Tess às junho 30, 2006 11:05 AM

Eu assino de bom grado, se souber como o fazer.
E estou de acordo, na íntegra.
Masi, considero que este Governo, dito "socialista" está cada vez mais com tiques fascizóides insuportáveis.

Publicado por: Mar às junho 30, 2006 02:09 PM

upsss..."Mais". ;-)

Publicado por: Mar às junho 30, 2006 02:10 PM

Olha Mar, já recebi um ou dois emails, com a mesma questão. Imagino que a malta que escreveu o abaixo assinado não pensou que eu o mostrasse aqui no blog... claro que se estás lá para os Alentejos, não dá para vires à manif e assinar aí. Vou perguntar como é que se pode fazer e depois digo.
Um abraço.

Publicado por: Emiéle às junho 30, 2006 02:24 PM

Já perguntei. Podes mandar para mim (para o email que deixo quando faço um comentário, é melhor) o nome e já agora profissão, e eu faço seguir. Também te posso dar o email do tipo que está a coordenar essa coisa, se preferires. É só dizeres.

Publicado por: Emiéle às junho 30, 2006 02:36 PM

Mando para ti, ora essa! :-)

Obrigada emiéle, não gosto de ficar de fora das causas que é preciso defender.

Publicado por: Mar às junho 30, 2006 03:23 PM

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