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junho 03, 2006
Supranumerário
Há um travo muito amargo neste conceito. Supranumerário. Supranumerário quer dizer que “está a mais”, pelo que eu entendo. Que não faz falta. Que se pode deitar fora. Que excede as necessidades. Que é um trambolho. Ou seja, é um arrasar com o orgulho de quem quer que seja. Para mim é uma noção maldita.
Entendo, com tristeza, que uma empresa entre em falência. Que, por diversos motivos, desde uma conjuntura externa a uma má gerência, se chegue à conclusão de que não vai conseguir manter a porta aberta e os seus trabalhadores ficam sem trabalho. É terrível, costuma-se tentar viabilizar outras soluções, reconverter o tipo de trabalho que se exercia e resolver se possível esse problema, porque quem lá trabalhava se foi contratado e exercia bem a sua tarefa merece continuar a fazê-la, essa ou outra similar.
Mas já não entendo como é que o Estado pode seguir o mesmo modelo. Não vai abrir falência por mais que se queixe. Se os seus trabalhadores não são competentes, houve inicialmente um erro de contratação, mas haverá decerto forma de lhes dar outra formação de modo a torná-los mais capazes. E, se estão mal no local de trabalho onde foram colocados, decerto que poderão passar para outro onde façam falta e cumpram melhor a sua função.
Mas a ideia que está latente no conceito do “supranumerário” não é da pessoa que está mal num local e portanto passará para outro, é mesmo de “estar a mais”! E, é o que se está agora a ver vir como um tsunami sobre a função pública, e ainda por cima com indiferença senão com gáudio de outros trabalhadores, que trabalhando no privado imaginam que “os da F.P.” são uns privilegiados. Tenho visto com tristeza trabalhadores contra trabalhadores, com a sociedade toda fracturada.
Agora o que me deixa de boca aberta é o desplante das palavras do Ministro da Agricultura. Ele diz que também é supranumerário . A sério. Mas depois do primeiro espanto, se lermos com cuidado e mais do que uma vez, entendemos onde ele quer chegar. Explica que está destacado de um Gabinete há mais de 14 anos e portanto o seu nome vai ser incluído na lista de funcionários a dispensar deste serviço. Estão a ver? O senhor não trabalha num local há 14 anos, tem trabalhado noutros sítios, portanto há uns 13 que o seu nome nem lá devia constar!!! Não tem nada a ver, com quem está a trabalhar hoje num local e amanhã vai para casa sem trabalho. É preciso muita cara de pau para fazer aquela afirmação.
Para ser franca quando a li, ainda pensei que ele ia era deixar de ser ministro. Seria um ministro supranumerário, excedente, e sabe-se lá se o não é…
Emiéle
Publicado por populo às junho 3, 2006 09:50 AM
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Comentários
Algo está mal na(s) sociedade(s) contemporânea(s) não é Emiéle? Na minha perspectiva, o grande e enorme problema é que ainda nenhum governo teve a coragem de eliminar os erros decorrentes do 25 de Abril e do regresso de 1 milhão de portugueses das colónias. Questão profundamente delicada e que só terá solução após a renovação total da classe política actual e da renovação geracional. Leva o seu tempo. Até lá, vamos andando aos murros e pontapés, uns contra os outros.
Publicado por: Miguel às junho 3, 2006 11:43 AM
Miguel a coisa está tão mal que só me posso sentir solidária com quem vê tudo em redor a desmoronar... Se passasses por Lisboa ias ver prédio sim prédio não com letreiros de apartamentos para vender. Milhares de pessoas querem vender a casa onde vivem por não a poder pagar. Mas as rendas custam quase o mesmo...!? Vamos voltar a ver aumentar a mancha das barracas? Quase toda a gente anda endividada até ao máximo. E cortar onde?!
Eu sinto-me priveligiada e contudo tenho perdido muitíssimo poder de compra, a minha vida não se compara com o que era há 10 anos.
Publicado por: Emiéle às junho 3, 2006 12:20 PM
É complicado é Emiéle. Muito. Portugal passou por um processo extremamente complicado pós fim do Império sem ímpar após a 2ª guerra mundial. Ainda hoje se paga, em parte, esse choque violento. Também tenho pena das pessoas Emiéle, por tudo e mais alguma coisa. Não queria estar na pele delas e, por isso mesmo também, fiz as minhas opções. Como as pessoas fizeram as delas. Porque é que o nível de endividamento do rendimento disponível em Portugal passou de 40% em 1995 para 118% em 2005? Sem querer entrar em qualquer tipo de juízos, não deixa de ser espantoso termos passado de um país de barracas para um país de luxo do pé para a mão... Tudo aconteceu desde o Lisboa Capital da Cultura em 1992 e depois, com forte aceleração, desde a Expo98 não foi?
Eu não sei Emiéle. Aliás, nada sei. Só o que daí me chega, de muito aperto e de toda a gente se queixar. Alguma. Nós estamos à procura de quadros para preencher diversas vagas e o que daí me dizem, em termos de perfis, é que há muita gente a querer um emprego em vez de trabalho. Talvez assim seja. Até pelas experiências que tenho tido por aqui que me têm deixado boquiaberto e se, constituírem a regra, explicarão o porquê de muitas coisas.
Tu és uma privilegiada, eu sou, o meu pai é e mais alguns serão. Tirando alguns, os que supostamente são lutaram por isso. Muitos não têm sequer oportunidade de lutar, é verdade, mas também muito boa gente não faz pela vida.
Um abraço e a convicção de que as coisas hão-de mudar.
PS-Uma última nota: o que está a acontecer em Portugal é uma pequena crise tipo uma constipação. E se fosse uma pneumonia? Argentina?!
Publicado por: Miguel às junho 3, 2006 01:10 PM
Nem consigo imaginar, Miguel. A vida num desses paises sul-americanos em que a inflação se conta por mais de um algarismo, deixa-me com falta de imaginação. Se calhar a gente habituava-se a tudo.
Publicado por: Emiéle às junho 3, 2006 10:58 PM