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maio 27, 2006

Desemprego - escrever torto por linhas direitas

É difícil de entender mas talvez haja quem entenda. Quero dizer, eu mesma creio que entendo apesar de me custar. Faz hoje primeira página do Expresso com foto e tudo, uma notícia informação chocante:
Meninos, em Portugal, trabalham juntamente com a família para empresários de calçado ou de moda. Vão à escola, sim senhor. Por aí não se lhes pode pegar apesar de terem aprendido «mais depressa a coser do que a decorar a tabuada». Mas o resto da sua vida, é essa empreitada familiar, coser sapatos. Muitas horas por dia, tal como a mãe, tal como todo o resto da família que trabalha em casa. Porque isto de trabalhar em casa é um maná: não se ocupa espaço numa fábrica, não se gasta a luz e o aquecimento da fábrica, nem sequer é necessário fábrica, se calhar. Dá-se o trabalho ao trabalhador e ele que se desenrasque. Aliás nem se trata de “trabalho infantil” porque a empresa não sabe de nada – dá os materiais e recebe-os prontos, mais nada. Tudo muito inocente.
Não, não acuso esta mãe, descrita aqui como precocemente envelhecida o que é natural. Acuso sim o sistema que permite que uma multinacional pague de um modo tão baixo que seja necessário, para se sobreviver, pedir a ajuda de todos os membros da família, até as crianças que deveriam estar a brincar depois dos trabalhos da escola.
Porque como se sabe, há desemprego! Há adultos em idade de poderem trabalhar que não têm ocupação. E esta família nas condições que a peça descreve, trabalha decerto com um salário baixíssimo mas assim é que dá rendimento à empresa.
Ou então transferem esse trabalho para a Índia ou Malásia, não é?
A ameaça paira e é verdadeira.
As malhas do neo-liberalismo, não será?

Emiéle


Publicado por populo às maio 27, 2006 03:10 PM

Comentários

Há uns 15 anos trabalhei numa escola onde os meus alunos depois das aulas ajudavam as mães a fazer fivelas para sapatos. Nunca na vida tive nem voltei a ter alunos como aqueles: educados, trabalhadores, super interessados e bons alunos!
Não estou a dizer que as crianças devam trabalhar no calçado, só a dizer que as crianças devem ter diariamente um trabalho estipulado, tipo arrumar o quarto ou tratar das coisas do gato ou do cão. O que acontece hoje em dia é haver crianças que não fazem nada nem são responsáveis por nada e se transformam nuns mimados inuteis que julgam que tudo cai pronto lá do céu... e pais que têm 2 empregos para que não falte ao menino o ultimo brinquedo ou os ultimos tenis da moda!!
(no caso desses meus alunos eles trabalhavam cerca de 1 ou 2 horas por dia - era o que as mães diziam - e essa ajuda era fundamental para a substistência da família). Lembro-me muitas vezes deles porque sabiam o nome de todos os pássaros! Nem precisavam de os ver: conheciam-nos pelo cantar ou pelo ninho e foram os alunos mais felizes que eu alguma vez tive. Era uma turma 5 estrelas!!

Publicado por: saltapocinhas às maio 27, 2006 04:19 PM

É um tema em que é preciso algum conhecimento e muita cautela com as opiniões. Claro que todos gostaríamos que as nossa crianças, as crianças de todo o mundo estudassem e brincassem. São os direitos das crianças! Mas a realidae é bem outra. A realidade do"ser criança" e a realidade nacional. Conheço a escola, o mundo das crianças e o mundo da nossa indústria (mesmo a dos sapatos). Na região de Portugal onde ainda se fabricam sapatos atravessa-se uma enorme crise de desemprego, muitas famílias e muitos pequenos fabricantes lutam desesperadamente para sobreviver à concorrência, não é a pequena ajuda que as crianças dão a coser sapatos que os escraviza. Outra realidade é a não escolarização de crianças. Não vamos confundir o mosquito com a montanha.às multinacionais que dão o trabalho para casa nada disso interessa, apenas fazem contas e trocarão facilmente a mão-de-obra portuguesa pela chinesa ou outra inda mais barata. E aí as crianças que, agora, ajudam a coser sapatos ficarão sem sustento o que é bem mais grave. Como diz o comentário anterior, também tenho a mesma experiência, isto é, melhor aproveitamento dos alunos com hábitos de trabalho do que aqueles com excesso de mimos.

Publicado por: João Norte às maio 27, 2006 04:43 PM

Meus amigos, vamos ver se não deixo aqui mal-entendidos. Já há tempos (nem sei bem se no tempo do Afixe) escrevi um post que deu alguma polémica, porque a minha opinião é a seguinte:
Naquilo que se pode chamar "trabalho infantil" temos 3 níveis:
a) a criança que é responsável por uma tarefa doméstica. Isso nunca se poderá chamar "trabalho" e é claramente pedagógico e educativo. Não me refiro apenas a arrumar o quarto ou fazer a cama, quero dizer colaborar numa tarefa que é para todos - levar o lixo, pôr a mesa, lavar a salada. Quanto a estas tarefas defendo que deviam ser "obrigatórias para a integração social da criança. O tal excesso de mimo só tem desvantagens!
b) a criança que colabora com a família numa tarefa de agricultura, muitas vezes sazonal. Vêm da escola, pousam a mochila, e vão apanhar o tomate, ou colher a fruta, ou arrancar as batatas. Também não lhe chamo "trabalho infantil" e, embora a outro nível, acho-o pedagógico. Estão integrados numa tarefa familiar comum, o seu trabalho é muito útil, e ainda por cima ficam com conhecimentos da vida do campo e da agricultura muito interessantes e que lhe aumentam a cultura.
c) a criança, que tal como refere a reportagem, trabalha para fóra, para que a família receba dinheiro. O que tentei dizer é que a "culpa" não é da família que vive com tais dificuldades que tem mesmo de pedir ajuda às crianças da casa. Mas lá que existe exploração da mão-de-obra barata, para mim não resta dúvidas. As fábricas que dão este trabalho a fazer em casa, devem pagar 'à peça' imagino eu, para que quanto mais as pessoas trabalhem mais possam ganhar. Mas o pagamento tem de ser baixíssimo, a nível de 3º mundo (daí a ameaça de irem para um verdadeiro 3º mundo) E isso é que é chocante. Porque se a zona tem desemprego provavelmente terá de se pensar noutro tipo de investimento. Até porque, por mais que se faça, nunca se poderá concorrer com a mão de obra asiática. Eu vivi por lá e sei como se vive naquelas zonas...

Publicado por: Emiéle às maio 27, 2006 05:55 PM

Concordo inteiramente que a educação "actual", com o excesso de permissibilidade, está a criar uns monstrozinhos de enorme egoísmo que só pensam em si próprios. Também penso que deve haver muita cautela, nisso de evitar que os bibelots façam o menor esforço e a menor tarefa doméstica.
Este caso de que aqui se fala tem outros contornos. Não sei bem definir onde acaba uma coisa e começa a outra como a Emiéle disse. É complicado.
(ela parece ter as ideias mais claras do que as minhas...)

Publicado por: Joaninha às maio 27, 2006 09:36 PM

Mas a empresa estava completamente INOCENTE!
Ora vejam AQUI
Tadinhos...
Mas que surpresa, heim...?!

Publicado por: Raphael às maio 27, 2006 09:42 PM

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