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abril 09, 2006

cravo2.jpg No 24 de Abril...

Hoje, Domingo, preferi encaixar nesta rubrica as memórias que estou a reconstruir sob o título de:
Um caderno de Capa Castanha 2
3 anos.gif
Olha amiga, eu sei que eras pequenina mas ainda te consegues lembrar do final da guerra? Apeteceu-me perguntar-te isto agora.
«Se me lembro…! Essa é das imagens da minha infância que recordo com mais nitidez. Sentia-me confundida por perceber como tudo aquilo era importante para as pessoas que me rodeavam, pessoas que eram os meus modelos. Se os meus pais estavam naquele estado de excitação era porque, com certeza, se passava algo de muito sério! Era complicado, sentia-me também nervosa, um pouco assustada, arrastada por uma onda gigante de alegria colectiva.
Mas deixa-me voltar a esse tempo. Eu tinha cinco anos. A nossa vida do dia a dia era muito espartilhada. Para além do “espartilho” que era a própria existência do salazarismo com a pressão permanente sobre a liberdade de pensamento e de expressão, esse um morno medo latente, havia ainda o “espartilho” da guerra. Há quem hoje imagine que como Portugal pela sua neutralidade não entrou nela directamente, não foi afectado. Nada de mais errado! Fomos sim e muito. A vida do dia a dia só podia ser compreendida pela existência dessa guerra.
Lembro-me bem de como tudo tinha de ser poupado, da força opressora do racionamento. Havia senhas para se comprar quase tudo o que era necessário, cada família tinha mais ou menos senhas conforme o seu tamanho. E havia os produtos do mercado negro, um mercado clandestino mas a que todos recorriam. Coisas preciosas chegavam-nos da província quando as nossas raízes iam até lá. De vez em quando chegava a surpresa duma dúzia de ovos, uma garrafa de azeite. Era uma festa!
Custa-nos imaginar hoje, quando entramos no enorme casarão de um supermercado com prateleiras inteiras cheias de produtos, o valor que podia ter uma garrafinha de azeite que aparecia clandestinamente...Sabes que nessa altura havia muito menos lojas, mesmo na proporção. Havia mercearias, drogarias, lugares de hortaliça, capelistas, mas nem imaginas a variedade de produtos que nos vinham trazer à porta. Era um mercado ambulante.
O pão e o leite, em primeiro lugar. Lembro-me do padeiro, logo de madrugada, bater à porta com o enorme cesto comprido cheio de pão saído do forno, a leiteira com bilhas de lata vinha de porta em porta, e media o leite que se precisava directamente para o nosso fervedor. Depois, havia as varinas que traziam peixe também à nossa porta, e lembro-me de uma carrocinha puxada por um burro, onde um vendedor trazia os legumes. Tinha um pregão muito modulado cujas palavras nunca cheguei a entender. Mas isso não interessava porque, ao ouvir-se aquela cantiga, sabíamos que era o homem das hortaliças.
Quase nada se vendia empacotado.
Lembro-me de ir com a senha para a manteiga no bolso, até à mercearia e pedir 50 ou 100 gramas que o merceeiro atirava com uma grande colher de pau de um alguidar para cima da balança. Ou a farinha, ou o açúcar, ou o feijão, que ele despejava para uns cartuchos de papel pardo pesando-se a quantidade que se pedia. Depois assentava a compra num livro e pagava-se no fim do mês. Toda a gente fazia assim. Era o “cartão de crédito” da altura baseado na confiança.
Quando te digo que se poupava tudo, era tudo. Havia uma caixinha, na chaminé, para os fósforos queimados. Um fósforo, mesmo depois de usado, ia servir para acender outro lume aproveitando um que já estivesse aceso. Uma panela com um furo mandava-se consertar, deitar ali um pingo de solda. Na loiça que se partia, punha-se “gatos”, uns agrafes que mantinham os pedaços juntos.
E o rescaldo da guerra surgia também noutros campos. Olha as legiões de refugiados. Faziam moda, imagina. O cabelo cortado “à refugiada”, era muito mais curto porque não havia tempo para grandes penteados. Assim como elas não andavam de chapéu como as portuguesas, tapavam simplesmente a cabeça com lenços grandes. E inventavam soluções muito imaginativas: lembro-me bem de, em casa de uns amigos dos meus pais, ter visto uma senhora fugida da guerra que tinha feito a caminha do seu bebé com uma gaveta que retirou de uma cómoda... E foi também nessa altura que surgiu a moda das alcofas para os bebés. Se não havia berço, havia alcofa. Era um mundo novo mais simples, mais prático.
Mas o final da guerra foi o delírio. Foi isso que me perguntaste? Nunca tinha visto gente crescida a saltar de alegria! Na minha rua, de um momento para o outro viram-se as janelas cheias de colchas penduradas (é um hábito de festa que quase desapareceu, parece-me…) e as pessoas aos abraços e a rir. Gritavam de uma janela para a outra “Acabou a guerra!!!” Hoje, eu entendo que aquela alegria tão grande era porque se acreditava que ia ser a grande barrela: Hitler, Mussolini, Franco e Salazar. Tudo parecia possível. Os aliados tinham vencido e as ideologias que eles tinham combatido iam desaparecer.
Foi um momento de sonho e de grande felicidade.
Lembro-me sim. Lembro-me muito bem do fim da guerra. Como havia de esquecer?»
Clara

Emiéle

Publicado por populo às abril 9, 2006 11:20 AM

Comentários

Sem palavras!! É uma descrição incrível! olha lá não pensas publicar as histórias deste caderno? Eu comprava! Venham mais! Venham mais!! Isto é história!

Publicado por: Farpas às abril 9, 2006 01:53 PM

Sou uma filha do fim da guerra, mas lembro-me dos meus pais contarem isso tudo. E pela vida fora essa escassez esteve sempre presente - nada se desperdiçava.
Agora não se arranja quem ponha "gatos" na louça...

Publicado por: méri às abril 9, 2006 03:23 PM

Que interessante, Emiéle!
Quando publicaste, aqui há uns tempos o primeiro fui atrás dos links até ao Ruínas Circulares onde eles aparecerem. Trocaste um bocado as ilustrações, não foi...? Mas resultou muito bem, que esta menina com ar radioso e muito "de época" ilustra lindamente este texto que também relata uma coisa alegre. As coisas que se aprendem! Estou como o Farpas, desejosa de ler mais!!!
Essa dos 'gatos' que a Méri também fala, hoje nem se imagina. Até máquinas, se se avariam nem se manda concertar, deita-se fóra.

Publicado por: Tess às abril 9, 2006 03:33 PM

Hoje só por cá passei à noite (devo ter falta, não? :D ) e há imensa coisa interessante.
Foi uma boa ideia deixares este post grande para o domingo - apesar de haver muita malta como eu, que não se ligou à net. Mas a verdade é que está na linha dos outros do "24 de Abril.." só que afinal há muito tempo! Gostei imenso, Emiéle, não sei se a Clara é uma "itálica" que concorda em colaborar aqui, se outro nick teu, mas está escrito com muito cuidado, com um certo 'estilo', não é nada post-escrito-a-correr. Está muito bem escrito!
Repito que gostei muito!

Publicado por: joaninha às abril 9, 2006 08:08 PM

Muito sugestivo este texto. Até parece que se está a viver nessa altura, com tudo mais simples e a trazer-se as coisas à porta. Devia ser bem bom! Pãozinho quente de manhã, heim...? Mas essa do racionamento devia ser tramado.

Publicado por: Raphael às abril 9, 2006 08:22 PM

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