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abril 30, 2006
No 24 de Abril...
Guerra
É impossível falar do “24 de Abril” sem falar na Guerra. Guardei este ponto para o último dia talvez por ser tão grave que devia ter um lugar à parte.
A guerra colonial. Foi a gota de água, o tsunami que fez finalmente cair o fascismo. Hoje em dia, em que o serviço militar nem é obrigatório - e, mesmo quando ainda o era, tratava-se de uns meses aborrecidos em que se tinha de interromper os planos de vida para frequentar um quartel e fazer uns duros exercícios físicos - não se pode imaginar o que era a angústia das famílias portuguesas que viviam o terror de perderem um filho ou de o receberem mutilado para toda a vida. E tocava a todas as famílias. Havia alguns casos, em menor número, em que os rapazes decidiam não partir. Eram os refractários (se desapareciam antes de serem chamados) ou os desertores (se desapareciam já com o treino militar recebido). Contudo, nesse caso a angústia dos pais era outra: sabiam-nos longe das balas mas muito distantes de si, nem sempre recebiam notícias sabiam apenas que estavam num país estrangeiro, vivendo sabe-se lá como…
E ali não havia escapatória, mesmo quem tivesse dificuldades de saúde servia para a manutenção militar, para serviços menores, mas partia na mesma para África. Foi um terrível ceifar de vidas, sem uma saída à vista, porque Salazar dizia-se “orgulhosamente só”.
Emiéle
Publicado por populo às abril 30, 2006 09:45 AM
Comentários
Não me consigo imaginar numa situação de guerra, sinceramente não consigo... deve ser muito triste e marcante para quem lá esteve, as situações pelas quais passaram, as coisas que tiveram de fazer... não consigo imaginar... o sofrimento da familia...
Emiéle este foi um grande mês aqui no Pópulo! Fizeste um trabalho fenomenal! Fabulástico mesmo! Muito obrigado por esta partilha que tanto ensinou!!
Publicado por: Farpas às abril 30, 2006 01:09 PM
Um filho, um irmão, o marido, o noivo, um familiar, um amigo!
Os planos, os sonhos da juventude eram em função desse "serviço militar obrigatório"
O dilema ficar/não ficar! Foram anos tremendos!
Publicado por: méri às abril 30, 2006 02:37 PM
«Para Angola, em força» disse ele.
Assim foi. Iam "em força", mas voltavam sem nenhuma. E, quem por lá passou, mesmo vivos e com saúde física, a saúde mental, o trauma de guerra, esse nem vale a pena falar...
Publicado por: Joaninha às abril 30, 2006 02:47 PM
E como a Saltapocinhas lembrou ali acima, ainda por cima as notícias eram lentas, só por escrito e... mesmo assim...
Havia uma coisa chamada 'aerogramas' se não estou em erro, que era uma folha de papel dobrada e fechada, que pesava pouco para poder vir de avião mas onde também cabiam poucas palavras. Pelo menos poucas para a angústia dos pais. A verdade como ela lembrou, por vezes recebia-se essas cartas a dizerem que tudo estava bem, já depois da informação da morte.
Tempos muito negros que acabaram com o 25 de Abril. Mesmo que tudo voltasse para trás, isso é que não podia voltar!
Publicado por: Emiéle às abril 30, 2006 07:55 PM
Da guerra. Afinal qual a guerra que valeu a pena? A 2ª? A libertação da Península Ibérica? E a batalha de Aljubarrota e afins? Valeu de quê? E os milhares de mortos portugueses em França, para quê afinal?
Da minha família, todos os homens foram. Sem excepção. Uns na Guiné, outros em Moçambique e os demais em Angola. Todos voltaram, inteiros. Ao longo dos meus anos de estudante, muitos foram os professores que por lá andaram. Em diversas especialidades. Falavam-nos das suas experiências em diversas ocasiões.
Até hoje, não conheci nenhum refractário. Mal ou bem, concordando ou não, poucos homens dos que conheço deixaram de combater. Foram. E voltaram. Tal como eu teria ido.
A posteriori nenhuma guerra justifica o sangue derramado, as vidas perdidas, as vidas destruídas para sempre. Nenhuma. Até porque não são poucos os que, pelo povo e do lado do povo, mandando os outros como carne para canhão, lambuzam-se ainda hoje com os despojos dos que tiveram que sair à pressa da terra que não era sua por serem brancos, filhos de europeus. Esses, de braço no ar e punho fechado, a quem há muito que não incomoda verem dos seus BMW e Volvos com ar condicionado a desgraça daqueles a quem ontem chamaram pais, irmãos, filhos, tios, que abraçaram, beijaram e choraram por um desígnio comum. Sim, a guerra. Não valeu mesmo a pena...
Publicado por: Miguel às abril 30, 2006 10:31 PM
Estou de acordo em duas coisas com o Miguel, uma delas que isto “dá pano para mangas”, e a segunda que cada um terá o seu ponto de vista, a “sua verdade” digamos assim. O meu testemunho é bem diferente. Terá talvez que ver com a grande diferença de idades que temos, pelo que li dá-me para calcular que ele tenha entre trinta e quarenta anos e eu poderia muito à vontade ser sua mãe, pelo que as experiências são diferentes. Quanto a mim conheci muitos refractários, que me lembre aí uns 10, e uns 3 desertores. Com toda a consciência e sabendo a que se arriscavam, não era por cobardia isso posso garantir. E, infelizmente era amiga de uns que não voltaram. E posso testemunhar que tenho um primo direito, que ficou em Moçambique como moçambicano – é loiro (agora tem cabelos brancos…) e tem olhos azuis. Quando falo com ele faz muitas críticas, é verdade, mas afinal não são muito diferentes das que oiço aqui em Portugal, ou em França ou na Itália. Anda toda a gente muito zangada porque a vida não é nada como queria. De resto, também concordo que no fundo TODAS as guerras são más.
Publicado por: Júlia às maio 1, 2006 02:57 PM