« Uma imagem por dia | Entrada | Dinheiro mal gasto »
abril 23, 2006
No 24 de Abril...
Um caderno de capa castanha IV
Olha uma coisa, tu falaste-me do teu Jardim-Escola (pelo que percebi uma decisão dos teus pais ‘avançada’ para a época) mas como foi a escola?
«Também há bastante que dizer. Os meus pais eram uns anti-fascistas convictos e cresci no meio de fortes críticas ao regime. Contam-me, disso não me lembro, que quando era pequenina e brincava com bonecas, ralhava-lhes dizendo “és má! És pior que o Salazar” o que dá ideia que para mim seria um símbolo do mal. E assim, a escola foi um problema por causa da Mocidade Portuguesa, os pais desejavam que eu fosse iniciada ‘nessa coisa’ o mais tarde possível! Assim sendo, estive até ao exame da 3ª classe numa escola privada, onde só havia actividades da Mocidade ao sábado de manhã e, sempre que era possível, conseguíamos escapar. Não me recordo de grande coisa a não ser uns exercícios físicos e bastante catecismo o que era novidade para mim. Mas esse colégio era caro para as possibilidades dos meus pais e entretanto descobriram uma Escola Oficial onde a directora também era de esquerda e, a pedido dos pais, conseguia que algumas alunas escapassem à Mocidade. Fui lá fazer a 4ª
classe. Não faço a menor ideia de como me conseguiram matricular, porque a escola era bem longe da minha casa… Todas as manhãs ia apanhar o eléctrico longe levando ainda mais meia hora para chegar à escola. E ia sozinha, com 8 anos. Havia maior sentimento de segurança e, por outro lado, creio que os pais desejavam que me tornasse tão autónoma quanto possível. Lá isso…! Comecei a ser autónoma muito novinha.
Essa Escola foi muito importante, pelo que aprendi nas aulas é certo, mas mais ainda pelas lições de vida. Repara que, nessa época, uma menina com a minha origem social não costumava frequentar uma escola pública. Eu era a única lá com pais licenciados - a minha colega de carteira era filha de uma peixeira. Convidei-a para os meus anos e ela ficou deslumbrada, nunca tinha visto uma casa como a minha, coisa que me chocou muito. Quando terminou o ano percebi, cheia de surpresa, que mais de dois terços das minhas colegas não continuavam a estudar, ficavam apenas com a 4ª classe que era o indispensável. Foi um grande abalo, eu sabia perfeitamente que tinha ali colegas muito inteligentes e pareceu-me uma terrível injustiça eu ir para o liceu, algumas para a escola comercial mas a maioria voltar para casa. Mas porquê??? Os meus pais aproveitaram esse choque e explicaram-me o seu ponto de vista sobre a sociedade. Comecei então a ‘ser de esquerda’...
Também é certo me revoltou ver os castigos físicos, que na outra escola não existiam. Por cada erro de ortografia era uma reguada na palma da mão, e com muita força que via as lágrimas e o medo de quem estendia a mão para apanhar. Eu escapei sempre, creio que o estatuto dos meus pais incutia algum respeito à senhora professora e por outro lado era boa aluna, tinha muito boas condições de estudo em casa.
Claro que os sexos eram rigorosamente separados, as meninas numa escola os rapazes noutra, nem lhes passaria pela cabeça a pouca-vergonha de uma escola mista! E também se usava sempre uma bata branca que tapava a nossa roupa pessoal, o que não era mau porque evitava comparações mas por outro lado ajudava a esconder as situações de maior pobreza, porque “olhos que não vêm coração que não sente”! Era ‘uma igualdade’ um tanto fictícia. Quanto às matérias de estudo, fica para outra conversa que há muito a dizer e esta, hoje, já vai longa» Clara
Emiéle
Publicado por populo às abril 23, 2006 10:30 AM
Comentários
Estas crónicas que tens vindo a publicar são preciosas. É um testemunho de uma época, assim na primeira pessoa, que nos toca cá no íntimo. E o curioso é que já estou interessado em ver a continuação - ver esta menina a crescer...
Publicado por: zorro às abril 23, 2006 02:49 PM
Tens razão. Também estou encantada com estas memórias ou como se lhe queira chamar. E a Clara escreve muito bem.
Publicado por: joaninha às abril 23, 2006 02:57 PM
Não vou repetir o que acho destes teus posts, vou apenas dizer que no caso deste post há coisas que custam a mudar e em certos pontos, infelizmente, a história da Clara continua actual, pelo menos na sua essência.
Não resisto a dar-te os parabéns outra vez!!
Publicado por: Farpas às abril 23, 2006 03:34 PM
A Mocidade Portuguesa teve um papel utilíssimo no país e seria bastante importante nos dias de hoje...
Publicado por: Gil M. às janeiro 5, 2008 09:35 AM
acho estas memorias interessantes e acho a mocidade portuguesa um papel importantíssimo para portugal
Publicado por: mimi melo às abril 10, 2008 04:36 PM