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abril 19, 2006

cravo2.jpg No 24 de Abril...

Expressão de opinião em público
Este ponto é o mais vistoso e aquele que toda a gente conhece, mas nunca é demais relembrar.
Quando hoje, com toda a naturalidade, na fila do autocarro, ou na caixa do supermercado, ou até apreciando um objecto numa montra, se tem um desabafo com um desconhecido qualquer “Isto está cada vez pior!”, ou “Nem sei onde vamos parar”, esquecemos até que ponto essa franqueza era inadmissível antes do 25 de Abril. Não só com um desconhecido como eu agora escrevi, mas até mesmo uma conversa entre dois amigos, uma troca de opinião pessoal e em voz baixa, podia ser ouvida e denunciada à polícia política. Todo o cuidado era pouco, porque por todo o lado estavam “os olhos e ouvidos do rei”. E algumas palavras ditas distraidamente, um desabafo descuidado e sem qualquer intenção, podia ser o início de um calvário que não se sabia qual o fim. A verdade é que mesmo que a pessoa não fizesse mais nada senão protestar, isso era já um delito.
Poderia muito bem, por exemplo, por isso mesmo perder o seu emprego.

Emiéle

Publicado por populo às abril 19, 2006 08:25 AM

Comentários

Até a mim, que vivi isso já bem adulta, me parece vivência duma outra vida! Bem vistas as coisas até foi. O medo era (e é) uma coisa terrível

Publicado por: méri às abril 19, 2006 11:42 AM

Já que no "25 de Abril" os desabafos são permitidos aqui vai o meu: IVA aumentou, os ordenados congelaram, o desemprego aumentou, a gasolina aumenta todos os dias,os deputados fazem "mini-máxi" férias,o Sr Narana Coissoró afirma que em "dias de acontecimentos especiais, tal como o Benfica-Barcelona os deputados deviam ser dispensados do seu trabalho", as grandes empresas com lucros recorde,etc,etc...abro eu hoje o jornal e leio que o défice de 2005 é de 6%, mais 0,7% que o défice real de 2004!
Viva a 4ª República!!!!

Publicado por: ilha_man às abril 19, 2006 01:00 PM

Méri, sabes que me parece que algumas destas situações só podem ser verdadeiramente entendidas se tivessem sido "experimentadas", sentidas na pele. Quem nasceu depois, pensa sempre que são coisitas menores...
Assim, tipo - OK, não se podia falar mas isso também não mata a fome, ou pensamentos do tipo. A esquecer que há mais fomes do que aquela que é a falta de pão ( que também havia, pelo que eu sei)

Publicado por: joaninha às abril 19, 2006 01:28 PM

É mesmo isso, Joaninha!

Publicado por: méri às abril 19, 2006 03:56 PM

Isto hoje está melhor do que ontem, mas ainda está muuuuuito lento! Acho que ainda te falta pagares uma pontinha da renda da weblog.
Quanto ao tema em si. Olha Emiéle, o que sinto quando penso nisso é falta de ar. Falo a sério - falta de ar. Creio que se devia viver num sufoco nesses tempos!

Publicado por: zorro às abril 19, 2006 04:09 PM

ta melhor Zorro mas... ou nao entram ou entram em duplicado... a AEIOU esta a deixar muito mal todo o trabalho que o Paulo teve... mas isso sao outras historias...

Eu nao me imagino a viver assim... acho que a sensacao seria igual ou parecida com o que o Zorro descreve... claustrofobia

Publicado por: Farpas na Bifelandia (por isso sem acentos!) às abril 19, 2006 06:11 PM

Eu concordo com a Joaninha. É a reacção que vejo na maior parte das pessoas da minha idade, e, como ela, também acho que é porque nunca passaram por isso.

Agora uma dúvida: estas perseguições não eram mais dirigidas a pessoas de quem eles já desconfiavam e que até já tinham referenciadas? Porque senão, com a mania que os portugueses têm de dizer "isto está cada vez pior", tinham prendido a população inteira. Como não é o caso, e a maior parte das pessoas julga mesmo que só os dirigentes do PCP é que eram presos (e secretamente muitos ainda acham que nem era má ideia), eu fiquei com esta ideia, de que eles aproveitavam essa desculpa para prender pessoas que já tinham referenciadas.

Publicado por: Helena Romao às abril 19, 2006 06:52 PM

Olha Helena, vamos ser claros - é evidente que eu exagerei e não era por se dizer “isto está cada vez pior” que uma pessoa seria perseguida. Quando disse que podia ser o início de um longo calvário (apesar do tom piegas da frase) queria dizer o início de uma investigação. Porque aqui não referi uma figura sinistra que existia e era o “provocador”. Para além do “informador” da Pide, a pessoa que ouvia tudo o que se dizia e levava essa informação à polícia porque era esse o seu trabalho, essa pessoa ou outra fazia também de “provocador”. Com isto significa-se que faria comentários desagradáveis sobre o governo para ver como é que as pessoas reagiam. Se concordavam, começariam a ser investigados e aí é que o mais pequeno ‘pisar do risco’ podia ser motivo para a vida ser totalmente investigada, ao mais pequeno pormenor e coisas sem a menor importância poderiam ser consideradas crimes.
De resto é claro que não eram só os dirigentes do PCP que eram presos, com certeza. Então alguém acha que o PCP teria tantos dirigentes…?!!! Basta falar numa classe que à época eram chamados os “católicos progressista”, que não teriam nada a ver com o PC. Já ouviste falar no grupo da Capela do Rato, por exemplo?

Publicado por: Emiéle às abril 19, 2006 09:26 PM

Vinha agora dizer à Helena o que afinal a Emiéle já disse. Era fácil classificar

Publicado por: zorro às abril 19, 2006 09:30 PM

Ainda queria dizer uma coisa ao ilha_man: claro que tens razão em tudo o que dizes, e as coisas vão muito piores do que todos nós queríamos. Contudo, para além de poderem dizer e escrever isto sem a menor represália, olha que os ordenados desse tempo eram bem baixinhos, também havia desemprego e não havia nenhum subsídio nem ajuda para quem estava desempregado, a gasolina não fazia tanta falta porque muitíssimo menos gente tinha carro e mesmo assim quando foi a crise do petróleo as filas para comprar gasolina davam a volta aos quarteirões. De resto quanto às férias dos deputados isso era mais ou menos segredo, ninguém da plebe sabia se estavam ou não a trabalhar porque os jornais não iam dizer isso. Quanto aos lucros das grandes empresas nessa altura é melhor nem se falar com todas as ajudas que tinham e os seus monopólios. Esta república está muito mal, mas o “estado novo” era bem pior.

Publicado por: Emiéle às abril 19, 2006 09:52 PM

(como raio é que mais de metade do meu comentário desapareceu????)
Queria dizer que era fácil classificar Como aqui se tem mostrado, até a arte, as músicas, as canções eram censuradas. E esses cantores não eram comunistas, pois não?

Publicado por: zorro às abril 19, 2006 09:57 PM

Obrigada, Emiéle. O que dizes do PCP eu já sabia. O que quis dizer antes é que encontro esse tipo de ideia nas pessoas da minha idade.
E sabia que havia provocadores, mas nas manifestações (poucas) que iam havendo. Assim pelas paragens de transportes não sabia...

Publicado por: Helena Romao às abril 19, 2006 11:02 PM

Também acho que havia falta de ar! Como é que era possível as pessoas aguentarem tanto tempo sem dizer mal?

Publicado por: Johnny às abril 19, 2006 11:16 PM

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