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abril 16, 2006
No 24 de Abril...
Um Caderno de Capa Castanha III
Numa outra tarde, a dona do Caderno de Capa Castanha contou-me:
“Olha, Clara, tenho imensa pena de não me conseguir lembrar dos primeiros anos da minha infância. Muitas coisas que imagino serem recordações se calhar são apenas histórias que ouvi contar e fui aceitando como sendo verdadeiras lembranças. Mas consigo lembrar-me de alguns momentos com tanta nitidez que, esses, decerto foram mesmo reais.
A primeira vez que fui à escola, por exemplo. Nessa altura havia um único Jardim-Escola. As crianças costumavam ficar em casa até começarem os estudos. Mesmo no caso de as mães trabalharem, como quase todas as famílias tinham uma empregada ficávamos com ela. Isso, até mesmo quem tinha pouco dinheiro. E, se assim não fosse, havia uma avó, uma madrinha, uma tia com quem nós ficávamos durante o dia. No meu caso vivia connosco uma tia velha e uma empregada com quem fiquei até aos 3 anos.
Mas, como era filha única, os meus pais consideraram que era importante a convivência com outros meninos e, avançados para a época, foram levar-me ao tal Jardim-Escola. Era na ‘Pedro Alvares Cabral’, junto ao Jardim da Estrela. A intenção era boa, mas para mim esse dia foi um pesadelo! A viver 3 anos num ninho, senti-me projectada no ar sem saber como se abriam as asas. E, pelos padrões de hoje, a escola era muito rigorosa – entrava-se e pronto! Nada de os pais ficarem connosco uma manhã, ou a entrada ser gradual. Chegada à porta, cumprimentava-se uma senhora que eu nunca tinha visto e… adeus, até logo!
Nesta escola pretendia-se, firmemente, não haver distinções de classe e assim vestiam-nos um bibe de quadradinhos – azuis, amarelos ou rosa conforme a sala – e calçavam-nos umas sapatilhas de sola de corda. Lá distinções não havia mas, de início, senti que perdia era a identidade. Não era eu, era uma menina, igualzinha às outras todas. E todos eram desconhecidos para mim. A sensação, Clara, foi de verdadeiro pânico! Sentia-me diluída, fundida no conjunto, sem presença real. Esse dia foi inesquecível. Recordo-me de ouvir alguém dizer: “Coitadinha, esta faz pena, nem se ouve chorar só se lhe vêem as lágrimas cara abaixo”. E era certo, porque apesar de muito pequena eu tinha o meu orgulho e queria mostrar-me forte, nem queria que reparassem nas lágrimas que não conseguia segurar.
Depois habituei-me, claro está. Saía de casa, bem cedo, pela mão da tia-avó que morava connosco, e íamos até ao
eléctrico. Era uma meia hora a chegar ao Rato, e a seguir era só subir a avenida. Dessa parte sempre gostei e acho que os meninos de hoje, que vão de carro até à porta da escola, perdem qualquer coisa. Porque o convívio no carro eléctrico era divertido: as pessoas metiam-se comigo e puxavam-me o laço, entravam ardinas a vender jornais, havia miúdos que se penduravam das portas com o revisor a ralhar com eles, todos os dias havia motivos de interesse, era a vida perto de nós.
O revisor que vendia os bilhetes vinha de banco em banco, com 3 macinhos conforme a distância, bilhete de 5 tostões, de 7 tostões ou de 10 tostões. Com um alicate fazia um furinho no bilhete, marcando onde se tinha entrado. Muitas vezes brincava comigo, fingindo que me fazia um furo na orelha com esse alicate. Era uma relação muito mais humanizada do que a de hoje, a qualidade do tempo era diferente.
E é isso que gostava de acentuar. O tempo desenrolava-se à minha frente longo, longo, os dias, semanas, meses, pareciam não ter fim. Quando me diziam “para a semana que vem” parecia-me uma eternidade. Se queres saber, o que acho que mais mudou da minha infância para agora foi a qualidade do tempo. Houve algo que se transformou em profundidade. Nem melhor nem pior, mas o tempo hoje é diferente. Acredita.» Clara
Emiéle
Publicado por populo às abril 16, 2006 10:15 AM
Comentários
Acredito! E nao e so dependente da idade... o sitio onde estas tambem influencia... para mim aqui tambem me parece diferente...
Mais um espectacular... quase que nem consigo fazer comentarios a estes textos do "caderno" sao lindissimos! Cada vez que tento comentar lembro-me que ja disse isto no anterior, mas e verdade, os textos sao excelentes, por isso desculpa la mas vais ter de ler praticamente sempre o mesmo comentario: Genial!
Publicado por: Farpas na Bifelandia (por isso sem acentos!) às abril 16, 2006 12:13 PM
Agora como ando atrás do farpas, começo a ser o eco dele...! :)
É que acho que ele tem toda a razão. Conhecia estes textos do Ruínas, mas aqui até lhes acho outro 'sabor'! e as ilustrações também têm ajudado, o teres encontrado os bilhetes de eléctrico foi giríssimo! Com o tal buraquinho do alicate. Continua, Emiéle, [não sei se a "Clara" é uma itálica do Pópulo ] a publicar, para eu ir coleccionando.
Publicado por: joaninha às abril 16, 2006 05:46 PM
Eu sou relativamente novo, e estas histórias parecem-me fascinantes, como cair dentro de um romance. Imagino tão bem a menina de tranças e laços no cabelo a ir de eléctico com a tia-avó para o único Jardim-Escola que havia...
Publicado por: Raphael às abril 16, 2006 05:53 PM
Tambèm fiz umas feriazinhas, e não tenho passado pelo Populo. Há tanta coisa lá para baixo que o melhor é começar daqui para a frente, e prontos! De qualquer modo os posts "de Abril" ando a juntá-los, estes e os da Isabel do Troll. São testemunhos fabulosos.
A série do "Caderno Castanho" que tens guardado para o domingo, tem ainda o saborzinho engraçado de não dizeres por quem é escrito. Como disse a Joaninha, penso ser uma convidada, que ficou com estas crónicas em meio e aceitou continuar aqui neste blog. Mas sou eu a adivinhar...
Achei muito giro teres descoberto os bilhetes e conseguires que ficassem do mesmo tamanho!
Publicado por: Gui às abril 16, 2006 06:14 PM
Ehehehe! O caso desta colaboradora é mesmo para ser assim, em itálico e sem ela se identificar. Tem mais graça.
E ainda bem que gostam. Foi uma aposta que fiz e correu bem, como ando a confirmar.
Publicado por: Emiéle às abril 16, 2006 08:43 PM