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março 26, 2006

Perdidos e Achados II

“Inaugurei” esta secção há uns 8 dias e apetece-me dar-lhe seguimento. Existem uns posts que foram originalmente escritos noutro blog, mas que ficam aqui bem. Enquanto a Clara e a sua entrevistada estiverem de acordo em colaborar, estas recordações ficam bem no baú do Pópulo.
Um caderno de capa castanha
E ela, então, olhou-me com um leve sorriso:
«Sabes, Clara, muitas vezes penso que devia escrever as minhas recordações. Chamar-lhes memórias seria muito presunçoso, se calhar. É certo que me lembro com muita nitidez da minha vida de criança que, para vocês, são “cenas da vida privada” como se estuda nos livros de sociologia. Repara bem, eram os anos 40, o século ainda nem tinha chegado a meio.
E sabes o que me levou a pensar mais a sério em começar a escrever? Foi ter encontrado, quando desmanchei a casa depois da morte da minha mãe, um caderno da capa castanha, um velhinho “Caderno de Apontamentos”, ainda dos que diziam Havaneza das Avenidas e a respectiva morada. Era apenas um caderno escolar, como os dessa altura, já amarelado, grosso, com cerca de 100 páginas. Tinha escrito na primeira página uma data, o dia do meu nascimento.
Sabia que o caderno existia, tinham-me contado, mas a verdade é que nunca o lera. Aquele era o Diário do meu primeiro ano de vida. Consegues imaginar a emoção de ler, escrito com a letra do meu pai que também já não existia, o que ele tinha sentido quando olhou para mim a primeira vez?

(podem clicar para o verem em tamanho mais aproximado)


Fui concebida no início da guerra, porque nasci em meados de 1940. Sabes que penso que eu fui como um desafio dos meus pais, desafio à vida. O oposto ao aberrante grito de Viva la muerte! na época ainda muito recente.
Naquela altura já existia a Maternidade, mas eu nasci em casa. Em casa da minha avó, ali nas Avenidas Novas. O prédio ainda lá está, com uma porta de ferro forjado desenho Arte Nova. Mas, como te estava a contar, a primeira folha foi escrita pelo meu pai, apesar de todas as outras páginas já o serem pela mão da minha mãe. Na primeira estava registada a data e 10 da noite. Dizia “este foi um dia de inquietação e de esperanças”. Relembrava a chegada da parteira e contava como ele tinha ido logo para a rua. Olha que caminho se percorreu nestes sessenta anos… Hoje, o parto pode quase ser ‘em comum’. O pai ouve o primeiro som do seu bebé ao mesmo tempo que a mãe. Mas isso não passava pela cabeça dos meus pais, ele ali “só atrapalhava”. Começou então a subir e descer a rua olhando para a luz da janela. Já viste isso em filmes, não é? E estava ali no meu caderno, como subiu a correr a escada quando a luz se apagou e acendeu, a dar o sinal. E eu pude ler: -Tinha nascido uma menina! Anos mais tarde, fiquei com a certeza de que primeiro se tinha desejado um rapaz, mas naquele momento o que ali estava era de pura alegria, esquecida a possível desilusão.
No dia seguinte começa a narrativa da minha mãe. Uma linguagem muito romântica, mas recheada de pormenores por onde se podia seguir o meu dia a dia. Escrevia na cama, porque apesar de ter sido um parto fácil a minha mãe só se levantou passados 10 dias. E nota que era um casal desempoeirado, os dois licenciados, de esquerda… Mas era assim naquela altura. E lá vinham os pormenores: Pesavam-me todos os dias cheios de preocupação com o aumento de peso. Podia seguir a curva. E depois um dia sorri. Está lá! O dia certo e para quem sorri – afinal para a minha avó! Sabes bem que sempre adorei a minha avó. E também, rigorosamente, tudo que eu comia. Dia a dia. Imaginas o que é acompanhar o crescer de um bebé durante um ano, todos os dias?
E a disciplina rigorosa que se usava na época. Horas certas de comer, horas certas de dormir, horas certas de tomar banho e vestir. Está lá tudo. Um amor imenso mas nada de beijos por causa dos micróbios. Havia tuberculose, como sabes, e ainda não existiam antibióticos. Qualquer infecção podia ser grave. Tinha bordado por cima do berço “Se és meu amigo, não me beijes”. Li nas entrelinhas do Diário que essa regra não foi bem aceite pelas avós…
Esta narrativa diária durou 12 meses. O caderno termina com a minha primeira festa de anos, e a lista das prendas recebidas. Muitas prendas, mas brinquedos só 3. Um cãozinho de pano azul, um sempre-em-pé e um boneco de borracha. Também era o costume da época, vês? Ficariam de boca aberta se vissem a quantidade de brinquedos de uma criança de hoje. Quando li aquelas cem páginas, numa letra tão inclinada, vibrei com um testemunho tão real, tão vivo de uma época e dos seus costumes.
É boa ideia, não é, eu escrever também o que me lembro de quando era criança? Se calhar ensaio antes de escrever, contando-te primeiro a ti. Está bem?»

Clara

Emiéle


Publicado por populo às março 26, 2006 03:50 PM

Comentários

Esta "secção" promete, Emiéle!
Que magnífico texto, minha amiga. Eu não conhecia o blog "Ruinas Circulares" portanto isto foi uma primeira leitura. E como fui agora ver o outro blog, entendi que há mais textos destes. Que excelente ideia!!!

Publicado por: joaninha às março 26, 2006 04:42 PM

Sabes que eu fui lá dar por visitar muito o Afixe, sobretudo para te ler, e ainda me lembrava deste post/texto( ? nunca sei bem como chamar a este tipo de posts)
Ainda bem que o recuperas-te para aqui. Parece-me bem que gostei tanto de o ler agora como gostei da primeira vez!

Publicado por: Gui às março 26, 2006 06:41 PM

Ah, e foi melhorado com o "caderno castanho" himself!!! Dá cá, um tom verídico à história que eu sei lá! imagino que o tamanho exacto deve estar entre o 1º aumento e o 2º aumento... Deve ter sido scanarizado, não? Porque o 1º ainda é pequeno, quase um bloco, mas o 2º é grande demais. Tem muita graça.

Publicado por: Gui às março 26, 2006 06:44 PM

Bem, eu sou leitora mais recente de modo que não te segui nestas andanças... mas fiquei encantada com esta história. E o caderno é mesmo "de época", tem muita graça. Fico à espera de outras recordações que essa Clara consiga extrair e registar. São testemunhos preciosos de uma época.

Publicado por: Tess às março 26, 2006 06:48 PM

Cá estão as minhas leitoras fieis. Tenho de começar a pensar em arranjar medalhas de fidelidade... A um domingo e tudo!
Pois é Gui, não adivinhava que ainda te lembravas desta história ( nem sabia se lá tinhas ido nessa altura, já foi há quase um ano!)
De resto, estou a pensar em continuar esta "secção" sim senhor. Assim devagar, aí um post por semana ou coisa assim. Mas as recordações são material bom para um blog do tipo do Pópulo. :)

Publicado por: Emiéle às março 26, 2006 07:26 PM

Olha lá, não são só as leitoras que são fieis! Eu também tenho sido muito fiel mas comento pouco. Mas fiz o mesmo caminho da Gui, e lembro-me perfeitamente destes posts do Ruinas. E depois houve aquela louca de uma comentadora, que adorou o que estava escrito de um modo tão absurdo que só poderia incomodar a Clara lol!!!
(essa Clara era um nick teu?; para "roubares" o post só pode )
Fizeste muito bem em o ires "pescar" lá, e fica lindamente aqui nos "Perdidos e Achados".

Publicado por: king às março 26, 2006 08:12 PM

É mesmo uma "secção" que deves manter! É muito bom ler estes testemunhos!

Publicado por: Farpas às março 26, 2006 11:26 PM

Ainda bem que também gostaste Farpas! Tenho bastante estima por estas personagens, e creio que se pode ver aqui algumas coisas curiosas.

Publicado por: Emiéle às março 27, 2006 12:00 AM

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