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fevereiro 26, 2006
Um vestido de Carnaval
Há muitos anos, eu era pequenina. Naquele tempo, e onde vivíamos, não havia ainda a ideia de se “comprar” um fato para mascarar uma criança. Era tudo feito ou improvisado em casa. Até essa altura eu tinha-me vestido ou com fatos emprestados regionais, “minhota”, “mulher da Nazaré”, “ceifeira”, ou umas trapalhices para fazer de “cigana”. Mas nunca um fato como-deve-ser e que fosse mesmo meu. Também não o pedia, porque lá em casa não havia o costume de pedir – os pais adivinhavam! E adoravam fazer surpresas.
Nesse Carnaval, eu não sabia de que é que me iria mascarar. Uma amiga da família que tinha jeito para costura um dia tirou-me umas medidas o que me deixou intrigada, mas esclareceu-me logo que era para fazer uma surpresa à sua filha que era do meu tamanho, coisa que me pareceu lógica. Mas entretanto via os meus pais a cochichar divertidos, calando-se quando eu me aproximava.
E … tátátátá!!!! Na noite de sexta para sábado magro, a minha mãe pôs-me uma venda nos olhos, despiu-me e senti
que me vestiam, me punham qualquer coisa na cabeça, me calçavam uns sapatos e enfiavam um objecto na mão. Levaram-me para frente do espelho do guarda-fatos e tiraram a venda: estava ali a Fada Azul!!!! Faltou-me a respiração. Um vestido até aos pés de cetim azul, um carapuço em bico todo em purpurina com um véu de tule azul, uns sapatos também pintados de purpurina, e uma varinha mágica com um funcionamento especial que o meu pai me explicou: era uma vara de metal com uma estrela na ponta; atrás da estrela havia uma lâmpada minúscula, e no punho da vara um interruptor, quando eu queria “fadar” alguém tocava no interruptor e a luz acendia. Essa engenhoca tinha sido imaginada e feita pelo meu pai ( homem de letras, atenção!) e as pinturas do chapéu e sapatos pela minha mãe.
Senti-me uma verdadeira fada. Nesse Carnaval custou-me não andar durante 15 dias sempre vestida de fada azul. Nunca me senti tão feliz!
Hoje, tanto tempo depois, tenho a certeza que para além do prazer de me ver tão bonita foi o sentimento do amor fortíssimo dos meus pais, ali materializado, que me aqueceu por dentro, que me levou às nuvens. O vestido era bonito, mas a surpresa e o tempo que levaram a pensar em mim, senti-o ainda mais bonito.
Foram momentos de felicidade pura.
Emiéle
Publicado por populo às fevereiro 26, 2006 06:38 PM
Comentários
Este tipo de recordações são muito gratificantes.
Um @bração do
Zecatelhado
Publicado por: zecatelhado às fevereiro 26, 2006 07:11 PM
Bonito, Emiéle. Imagino-te bem, de Fada Azul! Hoje em dia às vezes dás mais ares ao "grilo" se continuarmos na história do Pinóquio...
:)
Mas é uma ternura de história.
Publicado por: king às fevereiro 26, 2006 08:33 PM
Já é um vício de vez em quando espreitar o Populo ( é o que dá ter sempre o PC ligado...)
E como de vez em quando cai mais um post - tu também nunca paras, mulher... - isso compensa o vir espreitar.
Desta vez, foi de novo um post intimista como tu também fazes muito bem. Como disse o King, uma ternura, tanto afecto, tanto amor.
Um post que nos deixa a sorrir, à fadazinha feliz!
Publicado por: Joaninha às fevereiro 26, 2006 08:37 PM
Ontem num hiper, vi um miudo fazer uma birra por uma máscara que os pais achavm demasiado cara (ou por outro motivo qualquer não queriam comprar). Qualquer semelhança com a tua história é - infelizmente - mera coincidência!
E eu adoro fadas!!
Se gostasse de me fantasiar era essa fantasia que escolhia...
Publicado por: saltapocinhas às fevereiro 26, 2006 10:29 PM
Pois é, Saltapocinhas. Era desse contraste que eu desejava falar, e na sorte que tive em viver noutra época e com aqueles pais.
Publicado por: Emiéle às fevereiro 27, 2006 10:00 AM