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fevereiro 15, 2006
Um inferno pessoal revisitado
Ontem, contra o meu hábito, não dei nenhuma assistência aqui ao blog. A verdade é que isto é um hobby. Hobby especial, é certo, e que me tem sido importante. Por isso cá volto hoje.
Quando ontem, no final da tarde, me preparava para tratar de um entorse que fiz no tornozelo, que estava inchadíssimo e me doía imenso, tocou o telefone. Diziam-me de uma familiar que tinha seguido de ambulância para uma urgência hospitalar. Não era familiar muito próxima, mas não havia mais ninguém a quem recorrer. A primeira tentativa, dado ser-me difícil pôr o pé no chão, foi experimentar o telefone. Depois de muitas dificuldades lá consegui entrar em linha com as informações das urgências, mas a minha ideia não servia. Queriam-me lá. Ela estava num estado de grande confusão mental e precisava-se de alguém que prestasse informações. Tinha mesmo de ir ao Amadora/Sintra. Portanto o primeiro degrau do inferno: meter-me na IC19 em hora de ponta e numa missão de urgência! Sem palavras.
Ao chegar, vendo que havia uma cancela à entrada concluí que não poderia entrar de carro ( burra!), estacionei e, a coxear, lá procurei a urgência, que fica exactamente nas traseiras do hospital… Muito cansada e nervosa, subi o segundo degrau do inferno: estabelecer contacto e 'entrar' nos serviços de urgência. As conversas que fui tendo com os diversos seguranças que tinham ordens para não deixar entrar ninguém, eram surrealistas. Mas, com muita insistência, esclarecendo que tinha sido o próprio hospital que me tinha chamado, lá passei essa barreira.
Terceiro degrau: orientar-me “dentro” dos corredores dos serviços de urgência. E aí o inferno tomava um aspecto menos pessoal e mais grave. O que se pode ver, entre macas, cadeiras de rodas, gente a gemer, outros a chorar, expressões apavoradas, pessoas protestando, dava para me tirar o sono por muitas noites. E por esse “inferno” ainda errei durante bastante tempo porque ninguém me dava nenhuma informação que me orientasse.
Quarto degrau: lá ouvi chamar pelos microfones “familiares de fulana”. No gabinete onde fui recebida, as coisas pareceram bem melhores. Um jovem médico atencioso, recolheu as minhas informações que nem eram muitas porque, como disse, não se tratava de familiar próxima. Mas foi um oásis, uma pessoa que me recebeu bem e tentou entender a situação. Só que o caso implicava a observação de outros especialistas e mais exames, portanto eu devia esperar.
E pronto. Quatro horas de espera por mais uma informação, rodeada de macas, de dezenas de pessoas em sofrimento, de gente que parecia moribunda ( passou mesmo uma maca com um vulto tapado por um lençol o que leva a pensar que o doente tinha falecido ) e mais sangue, vómitos, gemidos, queixas, lágrimas, parecia que todo o sofrimento do mundo se tinha reunido ali.
Quando escrevi o título deste post, é porque o que senti ontem foi muito forte e duro, mas o mais difícil de tudo foi ter vindo trazer à superfície da minha memória, outras cenas passadas em sítios iguais aquele, mas com pessoas muito perto do meu coração. Esse sofrimento foi muito difícil de reviver, mas completamente inevitável. A nossa memória não se desliga como um interruptor. E afinal, nem nós gostaríamos…

Emiéle
Publicado por populo às fevereiro 15, 2006 09:15 AM
Comentários
Estranhei a tua ausência, sim. E, sinceramente, pensei que por motivos bem mais adequados à data em si. Há alturas em que elas se sucedem umas às outras, acontece. Mas, como não poderia deixar de ser, o sol acaba sempre por brilhar. Beijinhos para ti.
PS-Nem imaginas as histórias que me fizeste lembrar agora, com este post. Ainda tenho que fazer a catarse delas.
Publicado por: Miguel às fevereiro 15, 2006 09:49 AM
Também estranhei um pouco a tua ausência. Não só só haver posts de manhã, com o não dares respostas, que costumas sempre fazer.
Não pensei que andasses nesse purgatório...
É horrível, sim.
Publicado por: Joaninha às fevereiro 15, 2006 11:19 AM
Um abraço, Emiéle.
Sei bem o que é isso... Descreveste-o muito bem, o pior é que as palavras não chegam, só passando por lá!
Publicado por: zorro às fevereiro 15, 2006 11:21 AM
Para atenuar o dizeres que não era familiar próxima. Contudo acrescentas que te fez relembrar outras situações, de modo que ...
Mas não havia mais ninguém disponível que acompanhasse a senhora? E tu sem poderes andar?!
Publicado por: Tess às fevereiro 15, 2006 11:22 AM
Sinto-me como o Miguel. Fizeste reviver muitas recordações.
Bolas...
Publicado por: c.c. às fevereiro 15, 2006 02:12 PM
Obrigada pelos vossos comentários, meus amigos.
A saga continua hoje, mas apesar de tudo, menos intensa.
O meu tempo está completamente racionado !
Publicado por: Emiéle às fevereiro 15, 2006 02:14 PM
é, os hospitais são sempre cenários em que as vertentes da vida que mais nos assustam estão presentes com particular intensidade.
Publicado por: susana às fevereiro 15, 2006 02:57 PM
Um abraço!
Publicado por: méri às fevereiro 15, 2006 03:12 PM
Eu não gosto nada de hospitais e felizmente tenho tido a sorte de não ter de entrar nas urgencias desde que os meus filhos eram pequeninos!
Um abraço e... força! (no pé não faças muita!)
Publicado por: saltapocinhas às fevereiro 15, 2006 07:56 PM
Obrigada a todos! (já fui deixar um "separador" lá acima, para ver se respiro fundo e sigo em frente!)
Susana, é exactammente isso. Parece que é a vida nas suas facetas mais assustadoras e em traço grosso. Sentimos uns medos estranhos, profundos, que são viscerais e por outro lado ficamos como crianças perante o saber dos técnicos, em completa dependência...
Saltapocinhas, o pior é que me fartei de fazer força no pé!!!! Só a caminhada, até à porta da famosa urgência por julgar que não podia ir de carro... Eu, infelizmente, já passei muitas e muitas horas por lá, não por mim, mas por pessoas queridas.
Publicado por: Emiéle às fevereiro 15, 2006 08:42 PM
Espero que já estejas melhor amiga! Eu tenho com o Hospital uma relação amor/ódio, foi o "Hospital" que me salvou a vida e adoro aquelas enfermeiras da oncologia que (infelizmente) ainda tenho de visitar regularmente, mas se não o tivesse de fazer, acho que lá iria na mesma porque criei laços com aqueles anjos de branco... mas sempre que passo os portões do hospital começo logo a transpirar, a sentir-me ansioso e mesmo mal disposto... quando tenho de esperar na "salinha" pela minha vez nem sei o que sinto... sei que não oiço nada, nem nada vejo... fico a pensar no vazio e é uma "dor" que não consigo descrever... a memória não se desliga não... e sim, eu também não gostaria que isso acontecesse... mas por vezes custa muito ter certas lembranças!
Publicado por: Farpas às fevereiro 15, 2006 09:21 PM
Tu, Farpas, és mesmo um exemplo vivo que vale a pena acreditar! Ainda bem!!!!!!
E de facto se por vezes há azares, também é certo que muitas vezes até as coisas correm bem.
Publicado por: Emiéle às fevereiro 15, 2006 11:09 PM
vc linda
Publicado por: jose às novembro 20, 2007 08:27 PM