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fevereiro 28, 2006
“No meu tempo” ( um post optimista )
É muito vulgar ouvir pessoas de meia-idade, arreliadas com a vida actual, pintarem um tempo passado todo em cor-de-rosa.
Quando os oiço, lembro-me muitas vezes de um filme muito antigo, creio que do realizador francês René Clair, interpretado pelo actor Gérard Philipe, filme chamado “Les belles-de-nuit” ( em português tinha o título de “O vagabundo dos sonhos” se não estou em erro) . Era uma comédia levezinha, sobre um jovem músico apaixonado. Aconteciam-lhe alguns azares na vida real e à noite sonhava com isso. Aparecia lá uma figura um pouco cómica - um velhote muito crítico, que censurava tudo e repetia constantemente: “Ah, no meu tempo é que era! Não havia nada disto!!!”O interessante é que o ‘sonhador’, no seu sonho ia parar “ao tempo” do velhote rezingão, e afinal a vida não era nada melhor, aparecendo no próprio sonho, o mesmo velhote a repetir “Ah, no meu tempo, é que era…!”. A graça da história é que ‘o sonhador’ ia, em cada noite, caminhando para trás na História, à procura desse tempo tão bom, e pelos séculos atrás ia sempre aparecendo o tal velhote abanando a cabeça e clamando: “Bah! No meu tempo…”
Era um filme optimista. René Clair, como Kapra, foram realizadores que talvez para se libertarem do peso da guerra, escolhiam histórias alegres e ingenuamente optimistas. Mas esta mensagem não é tola. Temos a tendência para ver as dificuldades reais por que se está a passar como as piores de sempre. Calma. Não será bem assim. O mundo
está mal, é indiscutível, mas se regressássemos a um passado longínquo íamos descobrir que já esteve bem pior.
Sabemos que nos falta imenso para o que desejamos de justiça, de bem estar, de respeito pelos valores que desejamos partilhados por todos. Se olharmos para cima, vemos o céu, e o céu parece-nos muito, muito longe. Mas se olharmos para trás vemos que já se percorreu um enorme caminho na direcção certa.
Força, e em frente!
Emiéle
Publicado por populo às fevereiro 28, 2006 09:45 AM
Comentários
Apoiado!
É mesmo assim que eu também penso. Afinal vivemos melhor que se vivia ( olha que há pouco mais de 100 anos a escravatura era aceite como coisa normal ) o que não quer dizer que não haja muito caminho a percorrer.
É o tal arco-íris que para aparecer é preciso ter chuvido.
Publicado por: Joaninha às fevereiro 28, 2006 10:31 AM
Concordo que o regresso ao passado não interessa - é evidente. Mas também acrescento que o homem não mudou, no fundamental, ao longo dos séculos. Apenas mudou o "envelope" (os fatos, as maneiras, etc...). A educação e a lei são importantes para o controlar (o homem), mas quando se vê o que se vê - guerras, crimes horrorosos, acho que tenho razão: o homem não mudou no fundamental, apenas o envelope...
Publicado por: dacar às fevereiro 28, 2006 10:48 AM
Joaninha, acredito mesmo nisso. O mundo tem avançado e "antigamente" não era melhor. Podia ser diferente, e nalguns pontos mais suave, mas noutros era também de enorme violência.
A história desse filme é uma mensagem muito bonita. Lembra-me também o Milagre de Milão, filme tão velhinho mas tão optimista.
Publicado por: Emiéle às fevereiro 28, 2006 10:48 AM
Concordando contigo e com o dacar, em termos genéricos, não posso deixar de achar que não será assim tão verdade dividindo o todo. É tudo uma questão de perspectiva. Mas nada como o optimismo, afinal tudo é política e nada mais do que isso.
Publicado por: Miguel às fevereiro 28, 2006 11:44 AM
Apesar do Dacar ter razão na essência ( é certo que o homem será sempre parecido com o que foi e será) o certo é que o homem é também um produto social, e terá se sujeitar às regras sociais. E aí, tu tens razão, essas regras têm melhorado ao longo dos tempos. Para além da escravatura de que falas, repara na pena de morte. Há umas centenas de anos nem se punha a questão de não a aplicar, e hoje são cada vez mais os países que a recusam. E mesmo onde ainda se pratica não é com a selvajaria que sabíamos acontecer ( pessoas queimadas vivas, esquartejadas, esfoladas, eu sei lá...)
Tens razão, Emiéle. escolheste bem o tema do teu post 1.ooo. Vamos em frente, mas já se percorreu muito caminho.
Publicado por: king às fevereiro 28, 2006 11:46 AM
Não sei se fui claro. Quando reli o que escrevi percebi que podia ter duas leituras: não digo que não se pratiquem os horrores de que falo, ainda hoje em dia, o que quero dizer é que não se faz "legalmente". O mundo indigna-se quando sabe o que se passa dentro de certas prisões, ou em países africamos, ou na China. Porque o que se pratica é às escondidas, ou pelo menos para que não se saiba. Mas antigamente era na praça pública, e o povo ia assistir com cestas de picnics. Esquartejar um homem era feito pelo carrasco e estava na lei. Está aí a diferença.
Publicado por: king às fevereiro 28, 2006 11:59 AM
Ok King. O que eu quero dizer é que a educação e a lei são fundamentais para controlar a natureza humana. Os homens matam-se por um pedaço de terra e não é preciso ir à China! A questão (o produto) social é essa: educação, educação e lei (aplicada com "justiça", e isto não é um pleonasmo porque existem estados e muito democraticos (!?) que não a aplicam desse modo!). Os filosofos pessimistas, que dizem que o homem é por natureza mau terão razão? A educação, a democracia e a lei, são fundamentais a meu ver - para que o homem não se coma um ao outro!
Para a Emiéle: René Clair é fundamental... como o René Char (na poesia) e o Renoir (tb nos filmes) e até o Elie Kazan apesar da posição que tomou na América denunciando os colegas de esquerda (viu o filme Esplendor na Relva?).
Publicado por: dacar às fevereiro 28, 2006 02:31 PM
Quando coleccionava "pensamentos" lembro-me de ter um que dizia mais ou menos que algumas pessoas são sempre infelizes porque vêem o presente pior de que ele é e o passado melhor do que foi...
Eu cá por mim acredito na evolução e em que, apesar de alguns retrocessos, o mundo vai sempre melhorando.
Publicado por: saltapocinhas às março 1, 2006 04:28 PM
É isso. Há mesmo quem olhe para trás e o veja melhor do que foi; se tivessem um "regresso ao passado" apanhavam cá uma desilusão!!!
De resto, é certo que a natureza humana é o que é, mas a sociedade vai lentamente melhorando. Já não fazemos pic-nics ao pé do cadafalso.
Publicado por: Emiéle às março 1, 2006 10:36 PM