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fevereiro 24, 2006

Laranja Mecânica?

Não gosto de falar de assuntos quando reconheço que tenho poucas informações e as que tenho são pouco seguras. Mas os noticiários têm falado de um caso tão horrível que, pelo menos em Portugal, não me lembro de ouvir nada semelhante. Parece uma história retirada do filme Laranja Mecânica: “um sem abrigo foi espancado até à morte por um grupo de adolescentes”. Isto parece ser um facto. Surgem depois as diversas roupagens para o vestir, os pormenores, as explicações, as dúvidas.
Aceito que nesta história haja várias vítimas, mas impressionou-me ouvir, de passagem, uma psicóloga afirmar “a vida destes miúdos nunca mais vai ser a mesma”. Ouvi a frase fora do contexto, e na altura pensei “a deles não vai ser a mesma, mas a da vítima, acabou!”. Pelo que ouvi, o infeliz que morreu era toxicodependente, sem-abrigo e travesti. Posso estar enganada e este último ponto não ser tão relevante como julgo, mas creio que o é. A rejeição/agressão do que se mostra como diferente é um sentimento reconhecido na sociologia e na psicologia. Um dos motivos pode ter estado aí. Contudo, o paradoxo é que o grupo dos agressores também era “diferente”, eram miúdos desintegrados, sem família organizada, vivendo em instituições. O serem vistos como “vítimas sociais” deve ancorar nesse ponto. E esse ponto, sendo sério e grave, não desculpabiliza nem justifica nada. O acto é gravíssimo, repugna e impressiona pela sua gratuitidade. Pelo que sei não foi uma resposta violenta a uma provocação também violenta, não foi uma rixa mal sucedida, foi um ataque deliberado que, mesmo que não tivesse sido fatal, era igualmente grave na sua intenção.
O que move estes jovens a tão grandes explosões de violência? E, sobretudo, o que pode e deve fazer a sociedade?

Emiéle

Publicado por populo às fevereiro 24, 2006 01:50 PM

Comentários

Pelo que pude saber, não estarás enganada, não. A vítima, transexual e não travesti, era frequentemente perseguida por miúdos daquela instituição. Esta história é miserável, sob qualquer ponto de vista. Entretanto, a partir das 19h30 de hoje - dia 24 de Fevereiro 2006 - vai decorrer uma vigília de repúdio ao crime, no jardim do Campo 24 de Agosto, frente ao local onde foi encontrado o corpo de Gisberta, conhecida como "Giz", organizada por um grupo de cidadãos e cidadãs do Porto.

Publicado por: zohia às fevereiro 24, 2006 02:41 PM

É, de facto, um caso terrível!
Quando teremos respostas para as tuas interrogações?
Reparaste que foi um dos miúdos que não aguentou e contou à professora? Foi esta réstia (feixe de luz do sol) que não se soube agarrar?

Publicado por: méri às fevereiro 24, 2006 02:42 PM

Este caso faz lembrar ainda mais um outro filme "Los Olvidados" de Luís Buñuel no qual um grupo de adolescentes problemáticos e miseráveis passa o tempo a divertir-se espancado pessoas ainda mais miseráveis que eles.....as semelhanças deste caso com o filme são abismais, a diferença é que a realidade consegue ser mais dura ainda que o cinema, porque no filme a vítima não morre...

Publicado por: Telmo às fevereiro 24, 2006 03:39 PM

é como dizes uma história de arrepiar pela frieza e completa falta de respeito por tudo e pela vida humana ( acredito, apesar de tudo, que não imaginassem aquele fim!)
De qualquer modo, mesmo a agressão tão brutal e pelos vistos repetida de outras vezes, é impressionante!

Publicado por: Joaninha às fevereiro 24, 2006 04:15 PM

Hoje estavamos a falar disso e todos dissemos ter pensado o mesmo "Isto foi em Portugal? Quando ouvi ainda pensei que tivesse sido nos EUA..."

Que violência... e é claro que o facto da vítima ser transexual ou travesti foi a razão do ataque... não acredito que não o tenha sido! Cada vez que me lembro... "entre os 10 e os 16 anos", até fico tonto...

Publicado por: Farpas às fevereiro 24, 2006 06:47 PM

Tens razão, Telmo, esse filme é antigo "Los Olvidados", mas pensando bem faz lembrar. Não tinha feito o paralelo, mas no fundo é agredir quem ainda está pior como forma de se sentir superior... Terrível.
E, como diz o Farpas, é gente ainda tão miúda, como é possível?! Claro que 'o grupo', o facto de se estar em grupo potencializa certas emoções e aumenta o sentimento de força. A Meri teve razão: o miúdo que não aguentou, é ainda uma luzinha que brilha. Oxalá não sofra represálias dos outros! Já tudo parece possível.

Publicado por: Emiéle às fevereiro 24, 2006 08:06 PM

Coisa de filme, mesmo. Quantas aprendizagens resultam das séries, dos filmes, dos jogos, que entretêm as muitas horas vazias de adultos e de jovens?
Parece um processo mimético, como aconteceu em Espanha e Inglaterra .

Publicado por: Inês às fevereiro 25, 2006 06:46 PM