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fevereiro 26, 2006

Esperança de vida ou qualidade de vida?

A expressão é muito bonita: “a esperança de vida”.
Significa, dito de um modo simplificado, a média de anos que as pessoas vivem, em certas sociedades ou em certas épocas. Como a medicina tem feito uns notáveis avanços a tal “esperança de vida” nas sociedades mais evoluídas tem aumentado espectacularmente. Muito bom. Muito bom porque é normal gostar-se de viver, é normal gostar-se de termos connosco os nossos familiares. A tal esperança, noção muito bonita.
Depois para complementar este quadro lindo devia estar no outro prato da balança a chamada “qualidade de vida”. E aqui é que tudo se estraga! Porque se para viver "basta" tratar as doenças e ter cuidado em não sofrer acidentes, mas para que a vida mereça ser vivida são necessários outros factores muito mais difíceis de se obter.
E encontramos este paradoxo: as pessoas recebem uma bela prenda (viverem mais anos ) que não desejam.
O DN traz duas reportagens sobre velhice, profundamente tocantes. Numa refere-se o problema da mobilidade, das pessoas muito velhinhas que vivem em andares altos e passam anos sem sair de casa. Imagina-se o que isto é?!
Em prisão domiciliária sem culpa formada chama-lhe a reportagem. Fala de uma senhora de 82 anos que há cinco que não sai de casa. A senhora tem uma frase que nos aperta o coração ao contar uma queda que deu «…. pensei que tinha morrido. Mas não. Tive azar. Não só não morri como fui condenada a prisão perpétua». Esta frase quase podia ser repetida pelas outras pessoas que a jornalista entrevistou, tudo mulheres porque… a “esperança de vida” é maior nas mulheres do que nos homens!
E a situação é tão triste, a “qualidade de vida” é tão má, que 45% dos suicídios em Portugal ocorrem depois dos 65 anos e 30% em indivíduos com mais de 70 anos como aqui nos dizem
Vários casos aqui contados, de solidão, de desespero. Uma frase duríssima "A minha vida é muito triste mas para morrer é preciso coragem”. E rezam pedindo a Deus a morte…
Esperança de vida?!
Que ironia!

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Emiéle

Publicado por populo às fevereiro 26, 2006 11:22 AM

Comentários

É um murro no estômago estas reportagens. Acho que ainda me doi tanto que nem te vou dizer nada - talvez daqui a bocado.
E, como sempre, que bela imagem, Emiéle! Uma metáfora visual. Que força de imagem. Parabéns.

Publicado por: Tess às fevereiro 26, 2006 11:52 AM

É terrível, Emiéle. E passa-se perto de nós que vamos desviando os olhos. Quando se imagina "qualidade de vida" saltamos para 'luxos' que não têm a ver com a existência de um simples elevador!!!!

Publicado por: king às fevereiro 26, 2006 03:36 PM

Fica-se um pouco como diz a Tess, sem ter palavras. A frase «para morrer é preciso coragem» arrepia! Que horror, que solidão de vida, que desânimo. E não vale culpar a família só, muitas vezes que condições tem a família para integrar estes idosos? Saindo de madrugada e voltando já de noite? Como é que lhe davam assistência?
É terrível, sim.

Publicado por: Joaninha às fevereiro 26, 2006 03:40 PM