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janeiro 31, 2006
Conversas
Uma sala de espera. Duas senhoras que esperam a sua vez vão conversando, uma delas seria de “terceira idade” e a companheira de “meia-idade” [ tem piada estas designações quanto a idades; porque não “segunda idade” ( ? ) , já que “idade completa” teria um ar muito fatal! ]
E a conversa, pessoal e íntima, era muito serena e muito lúcida. Confidenciava a mais velha para a outra que o que mais a assustava era a perda das suas capacidades intelectuais. Toda a vida se tinha preparado para ao chegar a velha ver pior ou ouvir pior. Os sentidos gastam-se e ela sabia disso. Até o olfacto e o paladar deixam de ser os mesmos, estava preparada para tal. Também sabia que ia ficar mais desmemoriada. A perda de memória dos velhos é coisa conhecida, e estava à espera disso. Mas havia outras coisas…
Que coisas, queria saber a outra. Distracções, por exemplo. Não tinham a ver com a memória, ou … se calhar tinham! Nesse dia, a conduzir nem reparou que o sinal tinha passado a verde, e tiveram que lhe buzinar. Que vexame. E ela que se orgulhava dos seus reflexos! Mas não tinha tido a ver com reflexos, simplesmente estava a pensar noutra coisa. Ficou muito preocupada. Ora, sossegava-a a outra, mas isso acontece a toda a gente.
Quantas pessoas novas, se estão cansadas ou preocupadas, ficam distraídas! Pois sim, respondia a mais velha, não tem nada a ver! Ela, não era assim. Há uns anos atrás, mesmo com outras preocupações prestava atenção ao que fazia, isto tem a ver com a idade e só com a idade. A famosa P.D.I.
E eu ia ouvindo, calada, que a conversa não era comigo.
Não era ? Como é a definição de ser vivo que aprendi em pequenina na escola… ?: nasce, cresce, reproduz-se, envelhece, morre.
Emiéle
Publicado por populo às janeiro 31, 2006 03:39 PM
Comentários
Que estranho, ia jurar que tinha deixado aqui um comentário e agora não o encontro...
Aliás, isto deve estar um pouco marado, porque da "outra vez" ( aquela que não entrou) tinha exactamente dito que tinha escrito uma coisa e que depois desisti!
É que quanto a este tipo de post é muito difícil de tomar uma decisão - por um lado nem se sabe o que se pode dizer, mas por outro custa-me ficar calada. Então "é assim": claro que cada pessoa é diferente, e culpamos a PDI por tudo o que corre pior. Mas também é certo que há pequenas coisas que se vão notando com os anos que passam e nos chateiam. Como por exemplo começar a fazer-se uma coisa cheia de genica e ao fim de um bocado a genica ir abaixo. Mas, por outro lado, queiramos quer não a idade dá-nos a tal experiência que ajuda muito a relactivizar certas coisas. Isto digo eu, mas se calhar depende muito do feitio de cada um, portanto o melhor é guardar a viola no saco.
Publicado por: Gui às janeiro 31, 2006 05:17 PM
A perda das capacidades intelectuais é o que atemoriza todos, penso. Mais que ver pior, ouvir pior ou mesmo alguma perda de mobilidade. A manutenção das capacidades intelectuais ajuda a contornar as limitações que vão surgindo, porque a definição do ser vivo é mesmo essa...
Publicado por: méri às janeiro 31, 2006 05:26 PM
É isso, Méri. Lida-se muito melhor com perdas mais "mensuráveis" digamos assim.
Gui - estás cheia de razão quando dizes que as pessoas são diferentes, e essa é a pedra de toque. O mesmo problema para uma pessoa pode ser coisa leve a para outra muito sério, depende muito de como se encara a situação. Neste história que ouvi, creio que a senhora que estava nervosa por não ter visto o sinal, se comparava consigo mesma noutras ocasiões e isso perturbava-a. Outra pessoa pensaria "ora, é natural" e seguia em frente!
Publicado por: Emiéle às janeiro 31, 2006 05:47 PM
Eu venho de uma autêntica familia. Uma familia que embora pequena, sempre que alguém diz "ai" correm logo todos! Isto vem a propósito de quê? Simples, este post fez-me lembrar uma das coisas que mais me faz impressão, principalmente porque não reconheço essa realidade à minha volta... quando as pessoas envelhecem os filhos, netos, etc, muitas vezes menosprezam essas pessoas, chegando ao ponto de ou não ligar ou "abandonar" ou mesmo abandonar (sem aspas!)... só espero que um dia consiga ter em gerações futuras o apoio e carinho que vejo que a "3ª idade" da minha familia tem... é mais por aí o meu medo... E que bom que é ver por vezes aquelas pessoas na televisão que festejam 90s e 100 anos com conversas clarissímas! Isso é um sonho!
Publicado por: Farpas às janeiro 31, 2006 10:27 PM
Tu tens razão, Farpas, mas digamos que essa tua reflexão encaixava melhor no post das "Más relações/ Vazio". Já aqui disseste que tens 25 anos. A conversa que eu ouvi e transcrevi, tem mais a ver com o que o próprio sente. Mesmo com um bom ambiente envolvente, o admitir que perde algumas capacidades, é muito doloroso. É um processo interior, que claro que pode ser ou ajudado ou agravado pelo ambiente que rodeia essa pessoa. Tens toda a razão, se a pessoa mais velha sente que não "lhe ligam nenhuma" isso só vai deixá-la pior. Mas quando se compara é consigo mesma, e a isso ninguém pode acudir.
Publicado por: Emiéle às fevereiro 1, 2006 08:13 AM
Só hoje vi este post que está aqui desde ontem ( afinal não sou uma leitora tão fiel como isso )
Muito bem escrito, Emiéle.
Mas que idade tens tu??? Se os 25 do Farpas se notam pela "distância" que se percebe, fico confusa contigo. Mesmo aceitando que só ouviste o diálogo, se te impressionou é porque estavas sintonizada nessa onda.
Bom, eu também estou sintonizada! É a maior verdade, que as pequenas traições da idade se recebem com surpresa. Como ? Eu?
Publicado por: Joaninha às fevereiro 1, 2006 08:40 PM
Tens bastante razão, mas olha que a partir de certa idade em diante 'sintonizamos' sempre.... Só aos 25 é que talvez ainda não.
Publicado por: Emiéle às fevereiro 1, 2006 09:29 PM