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dezembro 26, 2005
Limiar ( ? ) da pobreza
Uma notícia que foi falada nos media e chocou muita gente, pela notícia em si mesma e pela ironia trágica deste horror de ter caído em plena véspera de Natal, foi o incêndio que matou duas crianças na zona do Porto.
Na altura não falei no assunto. Precisei de um pouco de tempo para digerir a notícia, por que houve tanta coisa que me impressionou que era difícil seleccionar “o mais chocante”. Tudo era chocante. Porque se era chocante a morte, também o era a vida que ali se vive. Na notícia sobressai uma frase: « As duas irmãs de três e seis anos morreram intoxicadas com fumo do incêndio [….] no sétimo andar do prédio, [….] onde viviam sem água nem luz.» Liam-se depois várias considerações, sobre o abandono dos pais, sobre se tratarem ou não de crianças em risco, etc. Li que a casa estava degradada e suja e isto era referido num contexto de censura implícita, como quem pensa “desleixados, porcos, a culpa é toda deles”.
E depois fico a pensar. A pensar como é que eu trataria da minha casa, que até anda limpa e arrumada, se tivesse de morar num sétimo andar sem electricidade nem água. E pensar que naquela “urbanização” vivem mais de 16.000 pessoas. E pensar ainda que já houve quem se preocupasse com o caso, fizesse estudos e apresentasse projectos, mas que foram rejeitados por "Insuficiência orçamental para esse programa". É o que eles dizem.
Esse projecto, para o qual não havia dinheiro, pretendia apoiar, tirando-as da rua 5535 crianças e jovens. Mas não havia dinheiro ou, dizendo de um modo mais elegante, “havia insuficiência orçamental”. Agora, as chamas do incêndio iluminaram esta situação, porque morreram duas crianças, e ... as 5.533 que por ali continuam? E os adultos a cargo de quem estão?
Vão possivelmente a continuar a viver em sétimos andares sem água nem electricidade, no ano de 2005, vésperas de 2006.
ML
Publicado por populo às dezembro 26, 2005 10:01 AM
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Comentários
Hoje no programa da Fátima Lopes o jornalista Hernâni (acho que é o nome dele) falou do assunto, indignado com a burocracia que fez com que os bombeiros chegassem MEIA HORA depois e também indignado com as instituições que não funcionam ( e não funcionam mesmo, não viste o caso do R. despejado 2 dias depois, com a mãe e a irmã na mesma imundice de onde os tinham tirado??. MAS e os pais? Seria assim TÃO URGENTE ir tomar um café e deixar crianças pequenas sozinhas em casa com um candeeiro a petróleo por companhia?
Publicado por: saltapocinhas às dezembro 26, 2005 04:22 PM
Esse, cara saltapocinhas, é outra faceta difícil de entender. Ainda esta noite tive uma troca de impressões com uma amiga, sobre questões deste tipo. Como pessoas vivendo tão mal, mas tão mal, acabam por gerir mal o pouquíssimo que têm. Claro que neste caso, é sobretudo grave por os dois pais terem saído para o café deixando duas crianças pequeninas em casa. Mas quando há tão pouco dinheiro, porque se mantêm hábitos de tomar pequenos-almoços em pastelarias, por o preço de uma refeição completa em casa, por exemplo? Nota que duas bicas num café é o preço de dois litros de leite para as crianças. Há uma "desorganização económica" que em muitos casos necessitava de auxílio educativo, digamos assim...
Publicado por: ML às dezembro 27, 2005 12:31 AM
No outro dia disse precisamente isso a uma assistente social. Há mães e pais que precisavam de, em vez de ir a Caritas lá a casa enchê-los de bolachas e outros alimentos igualmente "importantes" deviam era obrigá-los-se recebem dinheiro ou bens têm de retribuir de alguma maneira - a fazer uma espécie de curso de formação para donos (as) de casa! Ensiná-los a fazer uma sopa com o dinheiro que gastam num maço de tabaco... a fazer o pequeno almoço durante uma semana inteira com o dinheiro dum pequeno almoço para 3 ou 4 na pastelaria...Eu sei do que falo porque há gente assim na minha escola. Por isso às vezes eu fico tão má quando se fala em ajudar e as ajudas continuam a ser despejar comida em casa das pessoas, dar-lhes o rendimento mínimo e nunca lhes exigir NADA em troca!
Publicado por: saltapocinhas às dezembro 27, 2005 12:53 AM
Clap, clap, clap!!!
Já somos duas, Saltapocinhas!
Há modos de ajudar que não é "dar o peixe". É para além de o ensinar a pescar, ensinar a cozinhá-lo!
Publicado por: ML às dezembro 27, 2005 11:17 AM