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novembro 30, 2005

Heterónimos

Quando se fala em Pessoa, de imediato saltam à memória os heterónimos. De tal modo que ficou para sempre associada uma imagem à outra - pensamos em heterónimos e vemos Pessoa, fala-se em Pessoa e lembramo-nos de “heterónimo".
Mas, sem a menor dúvida, são modos de escrever poesia tão distintos que se identificaria logo o “autor” mesmo que não estivesse assinado. Vejam:

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
Alberto Caeiro ( tinha de ser)

Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,
Não estou pensando em nada, e que bom!
Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...
Álvaro de Campos (é claro )

Quão breve tempo é a mais longa vida
E a juventude nela! Ah!, Cloe, Cloe,
Se não amo nem bebo,
Nem sem querer não penso,
Pesa-me a lei inimplorável, dói-me
A hora invita, o tempo que não cessa,
E aos ouvidos me sobe
Dos juncos o ruído
Na oculta margem onde os lírios frios
Da ínfera leiva crescem, e a corrente
Não sabe onde é o dia,
Sussurro gemebundo.
Ricardo Reis (óbvio, não é?)

ML

Publicado por populo às novembro 30, 2005 12:19 PM

Comentários

Viva O Fernando Pessoa.!!!
Tens toda a razão. Qualquer desses 3 trazem o nome consigo. E nem são dos mais conhecidos, eu que sei poemas e poemas dele de cor, tive de me esforçar para os localizar, mas não há dúvida que não se podiam trocar - é puro Caeiro, Álvaro de Campos ou Ricardo Reis...

Publicado por: R.S. às novembro 30, 2005 03:52 PM

O Camponês sempre foi o meu heterónimo de eleição! A sua visão do mundo, a sua "simplicidade" é genial!

Publicado por: Farpas às novembro 30, 2005 04:07 PM

ML, tens razão. fica sempre a marca indelével do verdadeiro autor. Também tenho isso comigo de identificar a pessoa pela escrita. Não engana. Um abraço.

Publicado por: soslayo às novembro 30, 2005 04:30 PM

Nos exemplos que escolheste, há toda a justificação para se apreciar menos o Ricardo Reis. Ele está lá, mas...
Comparado com "os outros" fica muito distante.

Publicado por: Joaninha às novembro 30, 2005 07:26 PM

E ainda tens o Bernardo Soares...
Diferente, é claro, mas Pessoa também!

Publicado por: Joaninha às novembro 30, 2005 07:28 PM

«O Livro do Desassossego» de Bernardo Soares é dos meus livros de culto.
Mas todo o Fernando Pessoa é um poeta excepcional!

Publicado por: Gui às novembro 30, 2005 09:48 PM

Também meu, Gui.
Possivelmente não é justo. Possivelmente os "pessoanos" não me perdoarão a heresia, mas, para mim, o Bernardo Soares do Livro do Desassossego é Fernando Pessoa. Não é heterónimo.
(Ai, amiga...será que vem aqui algum entendido???)
;);)

Publicado por: isabel faria às dezembro 1, 2005 04:03 PM