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novembro 13, 2005
Golegã revisited
Há um ano escrevi um post sobre um dia que passei na Golegã. Ontem estive de novo lá todo o dia, e quando voltei a reler o post achei que estava tão actualizado que só posso reproduzi-lo. É que tudo se voltou a repetir, tal e qual! Assim:
«Passei ontem um dia daqueles que se assinalam com uma pedrinha branca, para recordar em momentos mais sombrios.
Tenho uma amiga da Golegã. Há anos que insiste comigo para passar por lá na altura da Feira, que a casa de família tem as “portas abertas” mais de 24 horas. Nunca tinha aceite, nem sei bem porquê. Este ano o convite foi mais insistente e fiz-me à estrada. Para facilitar, um mapazinho com a casa assinalada, precioso porque a Golegã era um mar de gente este fim-de-semana.
Era verdade, podia confirmar-se, encontrei uma casa de portas bem abertas. Chegamos antes do almoço e parecia-me que tinha recuado muitos anos, para uma altura onde a família era matriarcal e os laços de vizinhança fortíssimos. Casa grande com jardim/quintal, e circulavam por ali quase 100 pessoas. Foi a minha estimativa mas a minha amiga negou :”Ná ! Aí umas 60...” E depois justificou “Sem as crianças”. Aquela multidão podia dividir-se em 3 faixas etárias: Um terço os mais velhos, (avós), outro terço os filhos destes, pais do terceiro terço, dezenas de criancinhas que surgiam dos locais mais improváveis.
Mas, o maravilhoso era a harmonia alegre com que tudo funcionava. Cada pessoa ajudava um bocadinho – trazia umas cadeiras, levava uns pratos – mas depois ficava, muito naturalmente, à conversa. Não se sentia aquele mau estar da casa onde uns-trabalham-muito-para-os-outros-não-fazerem-nada...
A comida era à moda da província –superabundante! As panelas e tachos, aí de metro e meio de diâmetro. Foram precisos 2 homens para tirar o tacho da feijoada de cima do fogão! O almoço foi caldo verde, feijoada e arroz doce, mas como parte dos convidados trazia também ‘qualquer coisa’ para acrescentar, não havia tampos de mesa que chegassem para tanta comida!!! E tudo no meio de risota, de montes de “lembras-te?...”, de comparações com outros anos, de uma barulheira enorme mas de grande bem-estar. Apesar de só conhecer 3 ou 4 pessoas, fui adoptada em poucos minutos, e num instante senti que já os conhecia há anos. Só havia o problema dos nomes, e foi sugerido que, para o ano que vem, se trouxesse uma etiqueta com o nome, como nos congressos. Na cozinha criou-se uma cadeia de montagem: alguém despejava os pratos, outra pessoa passava-lhes um pano para tirar bem os restos de comida e uma terceira arrumava na máquina de lavar. Havia sempre um voluntário a cirandar e a recolher pratos e copos sujos. Mas com naturalidade, quando se fartava ficava na paródia e tudo continuava harmonioso.
Entre o almoço e o jantar fomos ver os cavalos e espreitar a Feira, é claro. Uma loucura de multidão! Impressionante como os cavalos passavam no meio de ruas apinhadas, esperando para as pessoas se afastarem. Eu, francamente, não consigo levar muito a sério os homens e mulheres que se “fardam” a preceito para montar a cavalo. Mas se ficam felizes assim, é lá com eles. Com um olhar de orgulho à multidão, lá do alto do cavalo “Vejam que chic que eu estou...!” OK. Por mim, estejam à vontade.
Na volta, mais castanhas, mais água-pé, mais vinho do lavrador. E muita conversa, discussão, piadas, enlevo com os bebés. Vem o jantar. E mais canja, e mais lombo de porco, e mais um monte de doces. Creio que vou entrar em jejum total, comi o suficiente para um mês!
Era noite alta quando voltamos a Lisboa. Com a alma reconfortada de afecto e suave amizade. Sabe muito bem conviver com amigos destes.»
(se se perguntarem o que tem esta imagem a ver com o post, só posso dizer que a achei simbólica: muita cor, muitos cheiros, muita confusão e mas também uma ordem profunda; é uma imagem “calorosa”, afectiva, doce, tal como os afectos que senti)
ML
Publicado por populo às novembro 13, 2005 09:42 AM
Comentários
É esta “a outra ML” a intimista, o que torna este blog tão rico. Às vezes tenho pena que em proporção escrevas tão poucos “destes”. Porque se aprecio quando escreves sobre a vida sócio-política ( ena pai, que palavão tão caro…) que é o que fazes na maioria dos casos, também gosto imenso quando falas de ti, da tua vida pessoal o que fazes muito pouco. Mas sempre que o fazes vale a pena!
( por acaso tenho uma vaga ideia de ter lido esta tua história há muito tempo, mas se fizeste um copy/paste só posso aplaudir )
Publicado por: Joaninha às novembro 13, 2005 12:56 PM
Joaninha, para o ano vamos também! No meio de tanta gente ninguém vai dar conta!!! ;p
Publicado por: Farpas às novembro 13, 2005 01:46 PM
Farpas e Joaninha, bóra aí! Não acredito que «ninguém vai dar conta» como diz o Farpas, o que tinha a certeza é que seriam bem-recebidos, porque quando digo que a PORTA ESTÁ ABERTA estou a falar mesmo a sério! Quero dizer, o portão está no fecho por causa das crianças pequeninas não irem para a estrada, mas quem quiser entrar é abrir o fecho... e já lá está!
Só visto, não dá para contar bem. Uma pessoa não se pode sentir melhor!!!!
Publicado por: ML às novembro 13, 2005 02:20 PM
Hoje chego aqui atrazada, mas val a pena para ler este post.
Só posso concordar com o 1º comnetário!!! É mesmo o que sinto. Quando falas de outra realidade, o que acontece às vezes, gosto imenso. E também me parece que tinha lido um texto como este faz mais ou menos agora um ano ( tem de ser por ser o S. Martinho ) lá para o Afixe, mas continua tão bom como da outra vez. Imagino com toda a clareza a casa da tua amiga e essas 3 gerações a conviver.
Publicado por: Gui às novembro 13, 2005 05:06 PM
Eu conheço muito mal o Ribatejo. Acho que nunca fui à Golegã, e essa da feira de cavalos não me atrai especialmente. Mas a festa da tua amiga, essa sim, atraía-me! Gostei muito do carinho com que a descreves.
(não conhecia o Afixe, não dá para comparar, mas deste texto gostei muito)
A imagem que escolheste para o ilustrar está impecável. Olha que a mensagem é muito clara. Eu li-a logo tal como disseste: côr, calor, animação, reboliço, sabores, harmonia, entusiasmo... está lá tudo! Pode ser "em código" mas para quem souber ler, está lá!
Publicado por: R.S. às novembro 13, 2005 05:11 PM
Meus caros, ainda bem que consegui transmitir o prazer que ontem senti. Foi mesmo um dia muito bom! E tal como a TMN "gosto da vida como ela é" sobretudo quando é boa!!!!
Publicado por: ML às novembro 13, 2005 09:55 PM