« A inspiração do Jumento | Entrada | Mais “gates” »
outubro 29, 2005
"Paciência democrática"

Faz-me bastante impressão ver discutido um problema como o da “despenalização do aborto” numa óptica de quem ganha e quem perde, como um desafio de futebol com defesas, ataques e golos na própria baliza… É verdade que é um tema que emociona muito as pessoas, e nem sei se a emoção é boa conselheira. Recomendo a leitura de dois posts, escritos por duas mulheres, que eu admiro. Completamente diferentes, mas curiosamente complementares.
A M. Butterfly é uma jurista, e vem lembrar esta coisa, que se está a perder de vista no meio da emoção, de que se está a discutir é uma lei que penaliza um acto . Ainda não se chegou ao patamar de pensar como se apoiam essas pessoas, mas sim no castigo ou não-castigo. Porque nestas coisas o cavalo toma o freio nos dentes e perde-se completamente de vista o que está em causa neste momento.
A Isabel, no seu estilo inconfundível, relata uma experiência. Dispensa comentários. Estamos no domínio delicado da emoção. A Isabel transmite sentimentos e emoções como ninguém mais. Fica-se com um nó na garganta e sem argumentos racionais e frios.
Mas é curioso que o senhor primeiro-ministro nos fale de um interessante conceito: a "Paciência democrática"
Afinal é isso. Temos andado cheiinhos de paciência democrática. Creio que Portugal deve bater o record da paciência democrática.
E também estamos cheios de paciência para compreender que quando o mesmo senhor fala em "fidelidade aos compromissos assumidos" não se está a referir a todos os que foram quebrados no respeitante a impostos, a IVA, a tudo o que tem a ver com a péssima e cada vez pior qualidade de vida do povo que ele governa. Está claro que aí, quem não aceitar a quebra dos compromissos, terá uma visão tacanha e limitada dos problemas que se põem à governação.
É de facto preciso muita paciência, isso é. Democrática e da outra.
ML
PS- Depois deste post estar escrito encontrei no "Ai i Camandro" este excelente post . Outra prespectiva, com complementa muito bem o que eu sinto e disse. Simplesmente a da liberdade de uma decisão.
Publicado por populo às outubro 29, 2005 10:58 AM
Comentários
Obrigada pelos links, ML.
Foi uma visita interessante aois dois lados.
Mas isto vai fazer correr muita tinta, porque como dizes parece que o que está em jogo é o orgulho dos psrtidos e não a prisão de umas mulheres, "apanhadas" entre muitas outras.
Publicado por: R.C. às outubro 29, 2005 03:22 PM
R.C. sabes que no fundo acho que tens um pouco de razão... acho que há pessoas dentro de certos partidos que até estarão de acordo com esta despenalização, mas por estarem dentro de um partido que tem certos ideais, ideais esses com os quais algumas pessoas contam na votação, votam pelo Não, embora acredite que em consciência saibam que o caminho "certo" seja outro...
Publicado por: Farpas às outubro 29, 2005 06:03 PM
Eu posso testemunhar por experiência própria de quanto o Farpas tem razão. Brevemente direi que há muitos anos correu por aí um abaixo assinado, até um bocado provocatório, onde mulheres afirmavam terem abortado - como quem diz "agora venham prender-me"!. Acontece que eu andei a recolher assinaturas, e perguntei a uma amiga do PSD se o assinaria. Ela pegou na caneta e deixou lá o nome e identificação. Fiquei admirada, ela olhou-me nos olhos, e disse-me: -Querias que dissesse que não? Tu sabes que o fiz! É verdade que EU sabia, mas mais ninguém a não ser o marido. Contudo, depois desse acto corajoso, quando foi preciso tomar posição dentro do partido, ela absteve-se. Aceitou as ordens...
Publicado por: Joaninha às outubro 29, 2005 06:17 PM
Fui também ler o Ai o Camandro, e é o que eu penso. Há quem ( pelo lado da despenalização ) ache que é um problema de mulheres. Não acho. É um problema social, onde todos temos responsabilidades. E mistura-se muito as coisas como diz a M. Butterfly lá no Afixe. O que agora está em causa é a lei e o castigo.
Publicado por: king às outubro 29, 2005 06:20 PM
Há uma dúvida que eu tenho: Quem cometer um crime - praticar um roubo muito grave, matar uma pessoa - se for para outro país pode ser presa e condenada, não é?
Se uma mulher fizer um aborto em Espanha, Holanda,... etc, onde quer que ele seja legal, pode ser acusada disso em Portugal? Pergunto porque não sei.
Publicado por: Gui às outubro 29, 2005 06:26 PM
Muito bons os 3 links que deixaste.
Visitei todos, com prespectivas complementares.
E também bom o teu post.
Um abraço, ML
Publicado por: R.C. às outubro 29, 2005 06:28 PM
Gui mas essa pessoa não cometeu nenhum crime nem em Espanha nem em França, logo como não cometeu nenhum crime não pode ser julgada. Pelo menos "penso eu de que"!
Publicado por: Farpas às outubro 29, 2005 07:32 PM
A dúvida da Gui, terá alguma lógica, mas penso como o Farpas. Contudo...
Vamos imaginar, um ocidental, que esteja num país árabe e lá se case com duas ou três mulheres ( creio que pode ir até 4 ); se voltar à sua terra, os segundos casamentos não são válidos, ou talvez nenhum seja, mas não vai ser acusado de bigamia.
Publicado por: ML às outubro 29, 2005 09:54 PM