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outubro 05, 2005
Impotência e raiva
Conforme avisei aqui, ontem fui hoje, pela última vez, ver o que resta da fachada de um dos locais mais significativos dos quase 50 anos de salazarismo.
Reuniram-se umas cem pessoas, talvez ( nunca tive grande jeito para avaliar grupos de pessoas ). Muito menos do que a ocasião merecia, mas via-se, que todos vibravam com o mesmo sentimento. Desgosto, indignação. Falei com uma senhora de 86 anos que me contou parte da sua vida, corada de irritação embora de vez em quando limpasse uma lágrima. Falei com vários jovens, nascidos post-25 de Abril, menos comovidos, é certo mas também escandalizados.
Até porque o gesto de hoje, foi apenas uma despedida de uma parte do nosso passado. Dado o estado do edifício e o avançado da demolição, quando agora já só resta parte da fachada, também me parece que a decisão é irreversível. Mas como foi possível?! Como durante 30 anos ( ! ) se deixou ao abandono aquele prédio, como se deixou degradar daquela forma, e finalmente se aceitou alienar um património do nosso passado carregado de tanta recordação.
Enquanto ia olhando pela última vez aquelas ruínas ia pensando uma coisa que, curiosamente, li depois dito pelo Mário num comentário, ao post sobre o mesmo assunto, escrito pela Isabel. Pensava eu, que tal como nos castelos assombrados, se os espíritos daqueles que sofreram dias e dias e dias de tortura do sono, não viriam perturbar o sono de quem fosse habitar o futuro condomínio de luxo. Vão dormir ali o sono dos justos? No mesmo espaço onde tanto se sofreu? Eu sei que as casas com vista para cemitérios não são fáceis de vender ou alugar. É estranho como não se passa o mesmo com a construção num local tão amaldiçoado.
Enfim, como alguém dizia no final, resta-nos proteger o Aljube. Ou será que também ali vão fazer um belo Hotel com vista para o Tejo?
ML
Publicado por populo às outubro 5, 2005 06:00 PM
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Comentários
Muito sinceramente não me sentiria bem a dormir ali... Perto de um cemitério não me faz muita confusão e tem a vantagem de ser uma vizinhança sossegada, mas ali... ali não é a morte, é a história! É lidar com a história daquele lugar que seria mais difícil...
Provavelmente os responsáveis por esta "gracinha" até são (ou não) daqueles que olham para a TV muito escandalizados quando na altura do 25 de Abril mostram aquelas reportagens onde as pessoas não sabem o motivo do feriado... há um esforço por acabar com a memória de Homens que nos permitem estar por exemplo a teclar neste blogs... Estamos a acabar com a História meus amigos...
Os Homens morrem mas a sua memória fica, pelo menos em alguns de nós.
Publicado por: Farpas às outubro 5, 2005 10:24 PM
Concordo inteiramente com o que diz o Farpas. A falta de respeito pela nosso passado leva-nos a pensar que qualquer dia o Forte de Peniche se transforma numa pousada.
Publicado por: Johnny às outubro 5, 2005 10:55 PM