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outubro 03, 2005
Filhos únicos
Ouvi há pouco tempo, alguém dizer que dentro de alguns anos se ia dizer a frase: “no tempo em que havia irmãos…”. É verdade. Dentro de algum tempo a noção de irmão ou de tio, passa a ser coisa do passado. Os casais, desejam filhos, desejam até muito, tratam-nos desveladamente e com muito mimo e carinho, mas ficam-se pelo número um. A natalidade em Portugal indica exactamente isso
Difunde-se contudo a ideia, pelo menos já a tenho ouvido, de que tal acontece por egoísmo dos casais que não querem renunciar às suas comodidades, e portanto prescindem dos filhos.
É o tipo de conclusão profundamente injusta e leviana.
Ainda aceito ( e… com muita dificuldade ) que se possa tirar essa conclusão apressada, de casais que não queiram nenhum filho. Mesmo esses lá saberão porquê e não estamos dentro das suas cabeças para lhe conhecer os motivos.
Contudo, quem tem um filho já aceitou “perder” as tais comodidades da grande liberdade, de dormir até tarde, de marcar férias quando quiser, de gastar apenas consigo o seu ordenado.
O que faz a diferença de um para dois filhos?
Sabem que apoios sociais existem? Um infantário custa um salário mínimo. Se as crianças forem duas, serão dois salários mínimos. E ter um filho a estudar? Mesmo no ensino oficial há livros, cadernos, material escolar, equipamento. Não. Não se trata de egoísmo, não se trata de prescindir do supérfluo, trata-se já de não haver para o essencial. Enquanto não se modificar em profundidade a nossa política social, não se imagine que a tendência para a baixa da natalidade se vai inverter. E mais, creio até que revela sentido de responsabilidade por parte dos pais.
ML
Publicado por populo às outubro 3, 2005 07:35 AM
Comentários
A falta de políticas sociais a este nível é confrangedor. Aqui é que não dá mesmo para comparar com "a Europa" ! Estamos a anos-luz!
E ainda por cima sabendo que na nossa terra há maior percentagem de mães que trabalham a tempo inteiro do que nos outros países europeus.
Por acaso sei de casos de pessoas que faziam essas críticas muito azedas a respeito do "egoísmo", e falavam em ter 3 ou 4 filhos, mas iam tendo uma coisinha má quando se aperceberam dos preços dos infantários...
Publicado por: Gui às outubro 3, 2005 11:39 AM
E não sei se tens a ideia, Gui, de que tudo tem tendência a piorar. Cá por Lisboa, os infantários da Segurança Social, onde os pais pagavam de acordo com os seus rendimentos de IRS, vão ser todos privatizados. Tenho ouvido histórias "interessantes" sobre essa mudança.
Publicado por: zorro às outubro 3, 2005 11:42 AM
E a enorme quantidade de pais que conheço que ainda se esticaram com grande sacrifício ao segundo e que adorariam ter mais um ou dois, coisa que está completamente fora de questão, por razões económicas. Claro que a partir do primeiro, está a parte do 'egoísmo da vida sossegada' todo 'estragada': a grande maioria das pessoas que conheço não tem mais que um ou dois filhos não por não querer mas por não poder.
Publicado por: catarina às outubro 3, 2005 12:19 PM
Evidentemente. Para além das despesas, há também falta de aplicação das leis que protegem as mulheres no trabalho; se por engravidar e ser mãe a mulher continua a perder regalias e/ou a prejudicar as suas hipóteses de "subir", como é que vai depois sustentar a sua prole?
Publicado por: susana às outubro 3, 2005 12:50 PM
Para além das ilegalidades que se fazem e poucas são denunciadas, de patrões que na entrevista inicial tem o desplante de perguntar se a candidata pretende ter filhos...
É ver os casos que a CIDM conta. Não é um nem dois.
E, como diz a Catarina, depoios do primeiro, essa questão do sossego vai-se...
:)
Publicado por: ML às outubro 3, 2005 02:06 PM
Até porque dois até podem dar o triplo do trabalho, mas ocupam-se também muito um do outro, libertando-nos em outras instâncias. (um dia destes, passei por casa antes de ir buscar o mais novo à escola e, nesse bocadinho, o mais velho chegou trazendo já o outro a reboque - só como exemplo...)
Publicado por: mana às outubro 3, 2005 03:29 PM
Muito bem dito e muito bem comentado. Só me resta acrescentar uma coisa que me faz espécie: quando os jovens universitários reclamavam (não sei se continuam, já nem reparo) contra as propinas, os pais das crianças dos infantários pagavam mensalidades brutais, que continuam a pagar. E não há uma organização que imponha o respeito pelos pais trabalhadores! Não me admira que eles tenham que optar entre ser pais e ser trabalhadores. Por mais que gostem de ser pais, e adorassem ter muitos filhos, a opção pelos filhos é 'suicida'.
Publicado por: Inês às outubro 3, 2005 03:40 PM
Esse aspecto dos protestos das propinas e da resignação quanto às creches é muito bem visto. Porque a verdade é que os valores, paradoxalmente são semelhantes. E cada vez mais se está a entregar esse aspecto da resposta social nas mãos dos privados. A resposta pública é pouquíssima e, por exemplo em Lisboa, os tais poucos que ainda existem estão na calha para serem "privatizados".
Concordo com a Susana, que é muito interessante quando há irmãos com alguma diferença de idades, o papel "pedagógico" do maior, e o espírito de imitação do mais pequeno. É mesmo de aproveitar. Faz-lhes muito bem!
Publicado por: ML às outubro 3, 2005 10:40 PM
Concordo com quase tudo o que foi dito, mas acho que falta dizer que mais vale ter apenas um filho (ou nenhum) do que ter vários e lança-los para o mundo sem lhes dar a mínima atenção... isso sim é grave, e aí entra o planeamento familiar.
@Inês: os "jovens universitários" ainda reclamam contra o preço das propinas neste nosso ensino superior semi-público, e fazem muito bem (no meu ponto de vista) já que mesmo depois de pagarem os 600, ou 800€ do ensino "público" têm as condições que têm...
Publicado por: Farpas às outubro 3, 2005 11:55 PM